Dr Agenor ajeita-se na cabeceira da mesa. Terno cinza com gravata em tom parecido. Um pouco amassado. Maleta no chão junto ao pé da mesa. Documentos timbrados em suas mãos.
Pigarreia. Senhores, senhores... Por favor. Um minuto... Ruídos vocais. Um minutinho... Silêncio Ótimo. Bem, como todos sabem estamos aqui reunidos para lermos o testamento do Dr. Felipe Barreto que recentemente nos deixou. Colando seus óculos de leitura nos olhos, o velho advogado da família percorre seus olhos num documento e com sua mão esquerda coça a perna esbranquiçada. Ah sim, aqui está. O testamento cerrado foi firmado em doze de dezembro de 2006. Depois vocês podem checar as assinaturas das testemunhas e do Dr. Felipe. Está lacrado; ficou no meu cofre desde 2007.
Beth, viúva bem rejuvenescida, com lenço nas mãos, vestido comprido negro, filhas desoladas, garoto pequeno no chão brincando fora da densa atmosfera de velório. Tio Paulo, amigo e padrinho de Pietro, prima Verônica e Jussara ouvindo da porta. Limpa suas mãos no pano de prato e presta atenção no advogado que rasga a ponta de um envelope amarelado que contem o tal testamento. Coisa de rico!
Bem, aqui está, vamos ver.
Peço silencio pois vou ler o testamento.
Eu, Felipe Barreto, RG numero tal,CPF número tal – não precisa ler tantos detalhes, não é? - gozando de plena capacidade física e mental com minha livre e espontânea vontade e dentro dos limites que este instrumento me outorga, faço conhecer o meu desejo de destinação de meus bens que a lei me assegura.
À minha querida companheira Elizabeth Felix Barreto, deixo a nossa casa, meu carro Mercedes negro, blindado, R$ 350.000,00 e mais rendimentos anuais das ações em carteira na Corretora Bueno & Filhos. Após 5 anos de minha morte, essas ações já estarão liberadas para venda em pregão e cujo valor líquido extraído seja dividido 50% para a viúva e outros 50% em partes iguais para meus 3 filhos. Nomeio desde já tutor para este fim e outros cabíveis para o meu filho mais novo, o meu digníssimo advogado e procurador Dr. Agenor, que neste momento lê este documento.
O imóvel rural denominado Fazenda Bosque dos Barreto, situado no município de Extrema (SP) em partes iguais para minha filha mais velha, Beatriz Felix Barreto e Maria Clara Felix Barreto. Também deixo R$ 250.000,00 em aplicações financeiras no Banco do Brasil, agencia tal e tal para cada uma delas para pagar seus cursos universitários.
Continuando... Ao meu caçula Pietro Felix Barreto, menor, deixo nossa casa de praia e R$ 320.000,00 para custeio de sua vida incluindo seus estudos universitários. Ao tutor por mim nomeado caberá monitor estes gastos. O dr. Agenor receberá mensalmente a quantia de 20 salários mínimos para pagamento de honorários extraído da massa financeira da viúva meeira e filhos.
Finalmente, deixo para o meu melhor amigo Josias Siqueira dos Anjos a srta. Marlene Tobias dos Santos, CPF e RG número tal e tal, minha amante durante 20 anos, que saberá desfruta-la tal como fiz ao longo deste tempo. À srta. Marlene destino jóias e valores sob custódia na mesma agência do Banco do Brasil, cuja senha encontra-se sob sigilo com o meu advogado. Lembro ao amigo Josias que a srta. Marlene não permite relações anais nem suporta atos sádicos e masoquistas.
Favor comunicar o sr. Josias e a srta. Marlene o teor deste desejo uma vez que, presumo, não estejam presentes neste momento.
Estas constituem a livre expressão da minha vontade e do meu desejo mais profundo. O documento foi lavrado em 12º cartório da capital no dia 12 de dezembro de 2006, tendo como testemunhas o sr. Ricardo Monteiro de Carvalho, dona Lívia Nunes Parente e o sr. Carlos Roberto Vargas y Lopez.
Silêncio longuíssimo.
Bem, parece que é isso. Dr. Agenor levanta os olhos para os presentes...
Alguém tem algo a declarar?
quarta-feira, 14 de julho de 2010
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
A VISITA
Existe Borges em demasia. Você
talvez esteja falando com um
terceiro ou quarto Borges.
J.L.B.
A claridade vem da janela alta, situada um pouco acima da cruz católica. Ela vem como um facho de luz direto nos olhos... Um clarão. Reação instintiva de cobrir o rosto... Aperto os olhos fugindo da luz.
- Droga...
Devagar a vista acostuma.
- Hum...
As imagens vão ficando claras; nítidas: uma silhueta masculina: cabelos curtos, braços cruzados, blusa areia e um par de olhos fixos em mim...
- Há quanto tempo você está ai?
- Cheguei há pouco...
Arrasta-se para sentar com o costado na cabeceira da cama.
- Eu estava cochilando...
- Sei...
- E você?
- Queria te ver. Já era tempo, não é?
- Como assim? Por quê?
- Você sabe...
- Lúcio, seja claro: você sempre fala assim, a gente nunca entende...
- Entende sim senhor; você sabe, sabe muito bem do que estou falando. Sempre fugindo...
Meu rosto arde como se tivesse levado um tabefe...
- Não deu. Apenas isso. Tive... Tive receio. Fiquei um pouco confuso na época...
- Receio? Confuso com o quê?
- Não sei; receio... Sei lá. Não queria ir, oras bolas!
- Você tinha certeza?
- Sim; tinha. Quer dizer... Achava que sim...
- Então não tinha.
- O que você quer comigo, heim? Me torturar? Já não chega o que estou passando? Neste frio, com essas pessoas estranhas, gente que eu não conheço...
Silêncio
Olhando para o infinito, o acamado vai para dentro de si mesmo:
- Eu pensei que não dava... Simplesmente não dava para ir e pronto. Achava que tinha tomado a melhor decisão. A decisão certa. E... Bem... Depois, depois você já sabe...
-Você simplesmente se negou a ir, cara... Tinha que ter enfrentado; tinha que tentar... Precisava ter tido coragem. - o visitante fala com ódio e amargura.
Os olhos do jovem se enchem de lágrimas.
- Chega! Chega! Eu não agüento. Pare, pare com esse interrogatório!
Mãos no rosto, escondendo o choro com vergonha. Com o corpo virado para a cabeceira, rosto enfiado no travesseiro, a voz soa abafada:
- Não pude ir... Não consegui viajar para a Alemanha... Eu tive medo de não me adaptar, de ter que voltar... Medo. Medo de não conseguir, entendeu? Não consegui ir... - o choro fica intenso e convulso, como chuva com trovão.
- E? Continue.
Ainda de costas, reclinado, confessando...
- Eu deixei passar; pedi para não ir. Achei que era melhor. Mas depois tudo mudou, não sei o que aconteceu: foi ficando ruim; nada mais dava certo; fui ficando com medo... me fez mal, muito mal não ter ido... Passei a ter medo de tudo; até de sair na rua! O mundo ficou estranho, esquisito; não consegui mais ir pra Volks.
Encara o homem de braços cruzados e desvia o olhar para o chão:
- Preciso te contar uma coisa, Lúcio: comecei ver a toda hora aqueles lutadores, uns guerreiros... Todos fortes, com facas, lanças nas mãos. Estavam em todos os lugares. Desafiavam-me... Ô covarde. Cuzão. Nós vamos te pegar... Não adianta fugir. Lúcio; eles riam de mim. Gargalhavam. Eu fugia, mas eles me achavam... Me perseguiam; não tinha lugar para eu me esconder. Tinha que fugir. Era um inferno! Um maldito inferno!
Depois de longo tempo em silêncio, a respiração normaliza...
- A mãe me trouxe aqui. Não sei faz quanto tempo, Lúcio...
- Meses, cara: uns 3 meses.
- Três meses? Já?
- Já. E os guerreiros, ainda te perseguem?
- Não; não mais. Foram embora... Acho que estou melhor. Eu quero ir embora, ir para casa.
- Claro; claro... Vai sim...
Pausa.
- Me perdoa Lúcio!
- Já o perdoei há muito tempo. Na verdade, perdoei há anos... Tudo deu certo: casei com a Cleuza e tenho dois filhos, grandes; estão no colégio. Consegui, a duras penas, emprego no Kalassa. Cuidei-me. Fui promovido! Virei chefe de departamento... - conta cada vez mais exultante até que silencia; percebe onde está e o que veio fazer. Volta-se para o rapaz, muda o tom, quase terno, e aproxima-se da cama:
- Veja; eu precisava te encontrar; dizer-te isso; fazer com que você me visse, percebesse que eu estou bem. Entende? Olhe para mim, olhe para si mesmo!
Os dois homens se fitam por um tempo.
- Um dia nós dois voltaremos a nos encontrar - continua - não numa visita como agora... Em algum tempo, em algum lugar...
O visitante é atraído e fica absorto pela luz da janela por instantes.
- Agora preciso ir. A gente se vê.
Sem olhar para trás, vai embora.
O jovem suspira, escorrega na cama e mergulha novamente na sonolência. Languidamente.
talvez esteja falando com um
terceiro ou quarto Borges.
J.L.B.
A claridade vem da janela alta, situada um pouco acima da cruz católica. Ela vem como um facho de luz direto nos olhos... Um clarão. Reação instintiva de cobrir o rosto... Aperto os olhos fugindo da luz.
- Droga...
Devagar a vista acostuma.
- Hum...
As imagens vão ficando claras; nítidas: uma silhueta masculina: cabelos curtos, braços cruzados, blusa areia e um par de olhos fixos em mim...
- Há quanto tempo você está ai?
- Cheguei há pouco...
Arrasta-se para sentar com o costado na cabeceira da cama.
- Eu estava cochilando...
- Sei...
- E você?
- Queria te ver. Já era tempo, não é?
- Como assim? Por quê?
- Você sabe...
- Lúcio, seja claro: você sempre fala assim, a gente nunca entende...
- Entende sim senhor; você sabe, sabe muito bem do que estou falando. Sempre fugindo...
Meu rosto arde como se tivesse levado um tabefe...
- Não deu. Apenas isso. Tive... Tive receio. Fiquei um pouco confuso na época...
- Receio? Confuso com o quê?
- Não sei; receio... Sei lá. Não queria ir, oras bolas!
- Você tinha certeza?
- Sim; tinha. Quer dizer... Achava que sim...
- Então não tinha.
- O que você quer comigo, heim? Me torturar? Já não chega o que estou passando? Neste frio, com essas pessoas estranhas, gente que eu não conheço...
Silêncio
Olhando para o infinito, o acamado vai para dentro de si mesmo:
- Eu pensei que não dava... Simplesmente não dava para ir e pronto. Achava que tinha tomado a melhor decisão. A decisão certa. E... Bem... Depois, depois você já sabe...
-Você simplesmente se negou a ir, cara... Tinha que ter enfrentado; tinha que tentar... Precisava ter tido coragem. - o visitante fala com ódio e amargura.
Os olhos do jovem se enchem de lágrimas.
- Chega! Chega! Eu não agüento. Pare, pare com esse interrogatório!
Mãos no rosto, escondendo o choro com vergonha. Com o corpo virado para a cabeceira, rosto enfiado no travesseiro, a voz soa abafada:
- Não pude ir... Não consegui viajar para a Alemanha... Eu tive medo de não me adaptar, de ter que voltar... Medo. Medo de não conseguir, entendeu? Não consegui ir... - o choro fica intenso e convulso, como chuva com trovão.
- E? Continue.
Ainda de costas, reclinado, confessando...
- Eu deixei passar; pedi para não ir. Achei que era melhor. Mas depois tudo mudou, não sei o que aconteceu: foi ficando ruim; nada mais dava certo; fui ficando com medo... me fez mal, muito mal não ter ido... Passei a ter medo de tudo; até de sair na rua! O mundo ficou estranho, esquisito; não consegui mais ir pra Volks.
Encara o homem de braços cruzados e desvia o olhar para o chão:
- Preciso te contar uma coisa, Lúcio: comecei ver a toda hora aqueles lutadores, uns guerreiros... Todos fortes, com facas, lanças nas mãos. Estavam em todos os lugares. Desafiavam-me... Ô covarde. Cuzão. Nós vamos te pegar... Não adianta fugir. Lúcio; eles riam de mim. Gargalhavam. Eu fugia, mas eles me achavam... Me perseguiam; não tinha lugar para eu me esconder. Tinha que fugir. Era um inferno! Um maldito inferno!
Depois de longo tempo em silêncio, a respiração normaliza...
- A mãe me trouxe aqui. Não sei faz quanto tempo, Lúcio...
- Meses, cara: uns 3 meses.
- Três meses? Já?
- Já. E os guerreiros, ainda te perseguem?
- Não; não mais. Foram embora... Acho que estou melhor. Eu quero ir embora, ir para casa.
- Claro; claro... Vai sim...
Pausa.
- Me perdoa Lúcio!
- Já o perdoei há muito tempo. Na verdade, perdoei há anos... Tudo deu certo: casei com a Cleuza e tenho dois filhos, grandes; estão no colégio. Consegui, a duras penas, emprego no Kalassa. Cuidei-me. Fui promovido! Virei chefe de departamento... - conta cada vez mais exultante até que silencia; percebe onde está e o que veio fazer. Volta-se para o rapaz, muda o tom, quase terno, e aproxima-se da cama:
- Veja; eu precisava te encontrar; dizer-te isso; fazer com que você me visse, percebesse que eu estou bem. Entende? Olhe para mim, olhe para si mesmo!
Os dois homens se fitam por um tempo.
- Um dia nós dois voltaremos a nos encontrar - continua - não numa visita como agora... Em algum tempo, em algum lugar...
O visitante é atraído e fica absorto pela luz da janela por instantes.
- Agora preciso ir. A gente se vê.
Sem olhar para trás, vai embora.
O jovem suspira, escorrega na cama e mergulha novamente na sonolência. Languidamente.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
O ENIGMA DE ANTONIO
- Alô. Quem é? Quem? Ant... Antonio? Que Antonio?
Do outro lado da linha uma voz firme, inteiramente desconhecida, diz que me conhecia e como me achou.
- ...ai eu lembrei do seu sobrenome, coloquei na ferramenta de busca e então pam!
Maravilhas da informática. Internet.
- Achei você, cara! Que bom falar contigo! Paulinho, Oh Paulinho! Parecia sinceramente muito alegre.
- Lembra de mim? É o Antonio, porra!
Atônito, ainda em dúvida:
- Claro, Claro. Lembro sim... Quer dizer... Você era o Toninho?
Havia lembrado. Incrível; era ele mesmo.
- Toninho, quer dizer, Antonio, há quanto tempo, heim? 1965, 66... Estudamos juntos no Artur de Azevedo!
Sinto um misto de perplexidade e alguma alegria; tudo familiar e ao mesmo tempo desconhecido. O passado distante de repente entrava no presente. Apreensivo, levo os dedos à boca e nervoso mordisco a unha mas não consigo roê-la como fazia antigamente; hábito antigo do qual ficou somente o rastro.
- Lógico que sim, Antonio. Claro que sim... vamos... vamos combinar sim. Vai ser muito bom. Ainda pergunto de outros amigos da época cujos nomes ainda me lembrava. – ... E o Drauzio, o Caveira, Silvinha, Pedrão...
A conversa foi decaindo naturalmente e o impacto inicial, passando...
- Então Paulinho, a gente se reune de vez em quando para matar a saudade... Vamos te chamar, ok?
Concordo mas no fundo sei que dificilmente irei.
- Fique com os meus telefones, Antonio. E-mail também. Ah, sim; anote aí.
Enquanto ele procura uma caneta para fazer as anotações volto a ser invadido pelo sentimento de perplexidade. Oh Toninho!
- Eu te passo meus dados por e-mail, ok Paulinho?
- Ok Antonio, foi um prazer! Vou, vamos sim. Está bem. Tchau. A gente se vê...
Como pode? Durante mais de vinte anos venho acreditando numa verdade que simplesmente não existe: alguém havia me dito que o Antonio tinha morrido de câncer ainda adolescente, logo após eu ter saído do bairro.
Algum tempo depois, contrariando as minhas previsões, acabei indo a tal reunião com o pessoal do colégio e ali reencontrei alguns do meus colegas e naturalmente o Antonio. Relembramos muitas coisas escondidas atrás de uma penumbra de mais 30 anos, regadas com cerveja e salgadinhos gordurosos e pude constatar o efeito inexorável do tempo: todos envelhecidos, calvos, flácidos, barrigudos, irreconheciveis, salvo raras exceções. Antonio e eu acabamos saindo juntos da festa e fomos caminhando lado a lado até os nossos carros estacionados na rua, tempo suficiente para que Antonio abrisse o seu coração e me contasse uma história intrigante.
- ...Rapaz! Era demais. Imagine: Rio de Janeiro, aquelas praias, aquela beleza de cidade. Mulheres lindas. Foi aí que conheci Branca numa festa na casa de uns amigos que moram lá no Leblon. Foi tesão à primeira vista!
Ouvia-o avidamente. Ele estava empolgadíssimo com sua aventura. Estava bastante alterado pela bebida, rosto avermelhado e resolvemos parar na padaria para um café e ali mesmo continuou sua narrativa.
_ ...Olha!, a Branca era um encanto. Acabamos nos envolvendo. Foi uma loucura! O tempo que passei lá aproveitamos muito: praia, cerveja, música... muita música e muito sexo: dormimos juntos todas as noites. Uma delícia!
Foram duas semanas e meia de amor! Ria satisfeito fazendo referência ao ‘9 e ½ semanas de amor’. Depois de um pausa, cabisbaixo, conformado:
- Mas como tudo na vida, o que começa um dia acaba, meu companheiro: tinha chegado a hora de voltar pra casa. Você quer um cinzeiro, Paulinho? ao ver-me acender um cigarro. Espere aí um pouco... Pronto, tá na mão... Bom, onde parei. Ah! Na volta para casa. Foi bem legal, sabe? teve aquela coisa de despedida, aquela delicadeza no aeroporto, beijinhos, abraços apertados, tchauzinhos e sorrisos sinceros.
O tempo passou e tudo ficou para trás; casei duas vezes, tive filhos, mas nunca, juro por Deus!, nunca me esqueci da Branca. Sabe, era algo especial... Ele estava tentando entender sem entender nada.
- Era algo diferente, Paulinho. Não sei explicar. Quimica, paixão... Sei lá, só sei que Branca era um tormento. Que mulher! Sonhava.. inconformado. Após silêncio de instantes, suspira e meneia a cabeça retomando o fio da conversa..
- Várias e várias vezes eu cheguei a me masturbar imaginando estar com ela... Agora, escuta bem: presta atenção! Agora... Açúcar ou adoçante? Interrompe-se.
- Adoçante, Antonio. Isso, três gotas. Está bom, obrigado. Bom, e daí? Conta o resto!
- Bom, deixa eu ver? Ah!, lembrei! Eu vivia mal com minha mulher, sabe como é... bem, a verdade é que a imagem da Branca nunca saiu da minha cabeça. Aí me deu a louca e eu resolvi ir atrás dela. Eu andava muito descontrolado, precisava sair, esfriar a cabeça. Chego lá. Estou eu no Rio atrás dela. Eu sabia que Branca tinha uma loja fina de roupas femininas ali na rua Nossa Senhora de Copacabana. Chego ansioso e quase sem fôlego e vou perguntando para a primeira atendente que vejo:
- Por favor, por favor, eu gostaria de falar com a Branca.
- O senhor quer falar com a dona Bruna?
- Não, não. Branca. Ante ao olhar surpreso da atendente, continuei: A Branca... A dona da loja... Bran-ca, soletrei.
- O senhor quer falar com a dona Bruna?
- Não, não. Branca. Ante ao olhar surpreso da atendente, continuei: A Branca... A dona da loja... Bran-ca, soletrei.
- O senhor... o senhor. Acho que o senhor não sabe... A loja agora é da dona Bruna, meu senhor. A dona Branca era irmã dela; faleceu de câncer há muitos anos atrás.
Olho para Antonio: ele está calado e triste; o seu olhar está perdido no infinito. Esse átimo parece uma eternidade. Acabamos o café e nos despedimos com um abraço apertado e longo. Vou pensando no enigma que envolve Antonio com a morte. Ele jamais soube que eu o tinha como morto durante anos.
Do outro lado da linha uma voz firme, inteiramente desconhecida, diz que me conhecia e como me achou.
- ...ai eu lembrei do seu sobrenome, coloquei na ferramenta de busca e então pam!
Maravilhas da informática. Internet.
- Achei você, cara! Que bom falar contigo! Paulinho, Oh Paulinho! Parecia sinceramente muito alegre.
- Lembra de mim? É o Antonio, porra!
Atônito, ainda em dúvida:
- Claro, Claro. Lembro sim... Quer dizer... Você era o Toninho?
Havia lembrado. Incrível; era ele mesmo.
- Toninho, quer dizer, Antonio, há quanto tempo, heim? 1965, 66... Estudamos juntos no Artur de Azevedo!
Sinto um misto de perplexidade e alguma alegria; tudo familiar e ao mesmo tempo desconhecido. O passado distante de repente entrava no presente. Apreensivo, levo os dedos à boca e nervoso mordisco a unha mas não consigo roê-la como fazia antigamente; hábito antigo do qual ficou somente o rastro.
- Lógico que sim, Antonio. Claro que sim... vamos... vamos combinar sim. Vai ser muito bom. Ainda pergunto de outros amigos da época cujos nomes ainda me lembrava. – ... E o Drauzio, o Caveira, Silvinha, Pedrão...
A conversa foi decaindo naturalmente e o impacto inicial, passando...
- Então Paulinho, a gente se reune de vez em quando para matar a saudade... Vamos te chamar, ok?
Concordo mas no fundo sei que dificilmente irei.
- Fique com os meus telefones, Antonio. E-mail também. Ah, sim; anote aí.
Enquanto ele procura uma caneta para fazer as anotações volto a ser invadido pelo sentimento de perplexidade. Oh Toninho!
- Eu te passo meus dados por e-mail, ok Paulinho?
- Ok Antonio, foi um prazer! Vou, vamos sim. Está bem. Tchau. A gente se vê...
Como pode? Durante mais de vinte anos venho acreditando numa verdade que simplesmente não existe: alguém havia me dito que o Antonio tinha morrido de câncer ainda adolescente, logo após eu ter saído do bairro.
Algum tempo depois, contrariando as minhas previsões, acabei indo a tal reunião com o pessoal do colégio e ali reencontrei alguns do meus colegas e naturalmente o Antonio. Relembramos muitas coisas escondidas atrás de uma penumbra de mais 30 anos, regadas com cerveja e salgadinhos gordurosos e pude constatar o efeito inexorável do tempo: todos envelhecidos, calvos, flácidos, barrigudos, irreconheciveis, salvo raras exceções. Antonio e eu acabamos saindo juntos da festa e fomos caminhando lado a lado até os nossos carros estacionados na rua, tempo suficiente para que Antonio abrisse o seu coração e me contasse uma história intrigante.
- ...Rapaz! Era demais. Imagine: Rio de Janeiro, aquelas praias, aquela beleza de cidade. Mulheres lindas. Foi aí que conheci Branca numa festa na casa de uns amigos que moram lá no Leblon. Foi tesão à primeira vista!
Ouvia-o avidamente. Ele estava empolgadíssimo com sua aventura. Estava bastante alterado pela bebida, rosto avermelhado e resolvemos parar na padaria para um café e ali mesmo continuou sua narrativa.
_ ...Olha!, a Branca era um encanto. Acabamos nos envolvendo. Foi uma loucura! O tempo que passei lá aproveitamos muito: praia, cerveja, música... muita música e muito sexo: dormimos juntos todas as noites. Uma delícia!
Foram duas semanas e meia de amor! Ria satisfeito fazendo referência ao ‘9 e ½ semanas de amor’. Depois de um pausa, cabisbaixo, conformado:
- Mas como tudo na vida, o que começa um dia acaba, meu companheiro: tinha chegado a hora de voltar pra casa. Você quer um cinzeiro, Paulinho? ao ver-me acender um cigarro. Espere aí um pouco... Pronto, tá na mão... Bom, onde parei. Ah! Na volta para casa. Foi bem legal, sabe? teve aquela coisa de despedida, aquela delicadeza no aeroporto, beijinhos, abraços apertados, tchauzinhos e sorrisos sinceros.
O tempo passou e tudo ficou para trás; casei duas vezes, tive filhos, mas nunca, juro por Deus!, nunca me esqueci da Branca. Sabe, era algo especial... Ele estava tentando entender sem entender nada.
- Era algo diferente, Paulinho. Não sei explicar. Quimica, paixão... Sei lá, só sei que Branca era um tormento. Que mulher! Sonhava.. inconformado. Após silêncio de instantes, suspira e meneia a cabeça retomando o fio da conversa..
- Várias e várias vezes eu cheguei a me masturbar imaginando estar com ela... Agora, escuta bem: presta atenção! Agora... Açúcar ou adoçante? Interrompe-se.
- Adoçante, Antonio. Isso, três gotas. Está bom, obrigado. Bom, e daí? Conta o resto!
- Bom, deixa eu ver? Ah!, lembrei! Eu vivia mal com minha mulher, sabe como é... bem, a verdade é que a imagem da Branca nunca saiu da minha cabeça. Aí me deu a louca e eu resolvi ir atrás dela. Eu andava muito descontrolado, precisava sair, esfriar a cabeça. Chego lá. Estou eu no Rio atrás dela. Eu sabia que Branca tinha uma loja fina de roupas femininas ali na rua Nossa Senhora de Copacabana. Chego ansioso e quase sem fôlego e vou perguntando para a primeira atendente que vejo:
- Por favor, por favor, eu gostaria de falar com a Branca.
- O senhor quer falar com a dona Bruna?
- Não, não. Branca. Ante ao olhar surpreso da atendente, continuei: A Branca... A dona da loja... Bran-ca, soletrei.
- O senhor quer falar com a dona Bruna?
- Não, não. Branca. Ante ao olhar surpreso da atendente, continuei: A Branca... A dona da loja... Bran-ca, soletrei.
- O senhor... o senhor. Acho que o senhor não sabe... A loja agora é da dona Bruna, meu senhor. A dona Branca era irmã dela; faleceu de câncer há muitos anos atrás.
Olho para Antonio: ele está calado e triste; o seu olhar está perdido no infinito. Esse átimo parece uma eternidade. Acabamos o café e nos despedimos com um abraço apertado e longo. Vou pensando no enigma que envolve Antonio com a morte. Ele jamais soube que eu o tinha como morto durante anos.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
PABLO e VICTÓRIA
Ruído na fechadura da porta da rua.
Arre! Finalmente alguém chega nesta casa! Fico agitado quando chega alguém, não posso evitar. Depois passa...
- Hola Pablo, estás ahí?
- Si, si, si.
Claro que estou Vic... Eu não ia fugir, não é mesmo? Toda vez que você chega da rua me faz estas perguntas idiotas. Aonde eu iria?
Ela se aproxima de mim com a sua cara redonda e duas fileiras enormes, cheias de dentes grandes e alvos.
- Mi querido! Cariño mío, como estás, mi amor? Vayamos a oir música, Pablito – sai cantarolando em direção ao aparelho de som.
- Si, si, si.
Evidente que sim Vic, o que você quiser... Você é a dona da casa, lembra-se? Eu nunca me esqueço deste detalhe: ele condiciona a nossa relação.
O som rola com sotaque cubano.
Vic adora Compay Segundo, um mestre da velha guarda que encantou e ainda encanta o mundo mesclando suas canções com músicas tradicionais da Ilha. Vic veio adulta de Cuba onde conheceu Paulo Henrique, um brasileiro que tinha ido estudar Ciências Sociais na Universidade de Havana. Enamoram-se. Paixão pura. Ela sabia que ele jamais ficaria em Cuba. Vic abandonou o curso de Pedagogia e quando Paulo acabou a faculdade, ela veio com ele, casada. Depois de algum tempo no Brasil nasceu Martina, uma graça de menina! Há dois anos, Vic e Paulo Henrique se separaram e agora moramos nós três neste cubículo...
Daqui a pouco a van chega da escola trazendo Martina e a Vic já terá preparado o almoço. Com a Vic na cozinha, eu tenho um tempinho a mais de paz. Ando muito reflexivo ultimamente. Positivamente não gosto daqui! Estou farto! Sinto que também sou um estrangeiro, o que não é completamente falso; quer dizer, sou em parte. Explico: eu não nasci aqui; vim de fora, como a Vic, mas do interior do Brasil. Sou do mato. Eu vivia solto, livre... Passei meus primeiros tempos entre arbustos, árvores frutíferas, flores coloridas, poeira da terra... Havia a praçinha, água de bica, a venda, o armazém onde eu entrava furtivamente uma vez ou outra. Brincava sempre com prazer, alegria; sozinho ou com os meus irmãos... Não que não houvesse aqueles perigos quando se é pequeno, indefeso; havia sim, a vida sempre tem arapucas, mas com cuidado, eu conseguia me divertir. Ah! Que saudade... A natureza com suas cores e matizes! Mil azuis do céu pincelados com nuvens de tons diferentes de branco. Cheiros divinos! Sabores diversos! Sensações deliciosas do mato... A brisa suave, o Sol tênue dos fins de tarde; a chuva leve, de preferência… Ah! Não quero parecer um saudosista, mas eu realmente amava aqueles tempos, aqueles lugares... Podia não ser uma completa maravilha, mas era, digamos, mais natural.
Bem, depois... Depois me pegaram. Fui forçado; vim contra a minha vontade. Sofri. Nada pude fazer. Era muito pequeno; não consegui fugir. Fui trazido para cá. Eu tive que me adaptar à nova realidade, senão morreria. Aqui há muito barulho, cores feias, sujeira, muita gente, nada natural... É uma selva cinza de cimento. Até o céu é da cor de chumbo. O fato é que agora aqui estou: preso num apartamento de um dormitório com uma cubana e uma menina de cinco anos. O apartamento é minúsculo; eu durmo na sala e a Martina dorme com a mãe. Pelo menos tenho privacidade. Que adianta? Na muda nada.
Odeio tudo isso; odeio ter que enfrentar a carência afetiva da Vic que sobrecarrega a Martina e eu, mais a mim do que a menina. Sei que fiquei no lugar do Paulo. Não é fácil, não! De minha parte, tenho dado toda a atenção possível para a Vic; eu sei, ela precisa, está muito ferida. Mas há que se convir que às vezes é difícil dar conta dessa torrente de amor de uma mulher magoada, com uma filha pequena e morando fora do seu país.
- Pobrezito, estás con hambre! Cálmate, cariño. Sé el que le gusta! – ri feliz.
- Si, si, si.
Vic pensou em voltar várias vezes para Cuba; sofreu e chorou muito com a separação. Eu acompanhei tudo pois já estávamos juntos. Fiquei ao seu lado em sua dor. Meu coração ficava despedaçado, porém eu não pude dar mais do que minha atenção. Cheguei até cantar para ela várias vezes. Tinha a impressão que acalmava a Vic. Sua mãe, dona Etelvina, chegou a vir para cá com Madalena, a caçula, com intenção de levar filha e neta para casa, mas a Vic... A Vic é muito orgulhosa, não quis voltar derrotada para La Habana. Dizia-me sempre:
- Pablito, mírame bien, no desisto nunca; voy a trabajar, pelear, erigir mi vida. Bien… después si, creo que podré volver a Cuba. Volver como vencedora, como mi nombre Victoria enseña, no sabes? E assim tem sido a sua vida: luta sem trégua, luta renhida como se dizia antigamente.
Campainha soa e soam batidas ansiosas.
É a Martina que chegou. Que linda!
- Mamãe, mamãe. Estou com fome!
- Mi querida! Estaba esperándote! Bueno, primer de todo, hija mía, las manos... lávatelas y tome asiento. Hoy tenemos carne con legumes.
- Pablito, na escola eu fiz um desenho da nossa casa com você, eu e a mamãe e...
Martina continuou falando alguma coisa e correu para o banheiro obedecendo a mãe.
Almoço apertado na única sala do apartamento, sala multiuso: para comer, a Martina estudar, a Vic passar roupa, ver TV...
Depois do almoço Martina fica na casa da dona Gertrudes durante a tarde e Victoria pega a filha quando volta das aulas de espanhol. Eu fico por aqui. Como sempre. É minha sina. Queria tanto poder sair, poder dar os meus vôos pelo mundo, ser livre como fui um dia... Faltam-se os meios para luta, para me libertar. Diferente da Vic.
Toca a campainha.
- Olá Dona Gertrudes, espera un rat.., es decir, um minutinho... – Vic abre a porta e rapidamente traz a Martina do banheiro com os dentes escovados.
– Vete mi amor... Abaixa-se para beijá-la.
- Obedeça dona Gertrudes, heim?
- Pode llevar a minha niña, dona Gertrudes... Quando eu chegar eu passo en su departamento e pego a minha linda.
Ainda há tempo para Martina me fazer tchau com sua mãozinha antes de desaparecer levada pela vizinha. Vic fecha a porta e vai para o quarto se arrumar. Em poucos minutos ela já está na porta, maquiada, pronta para ir trabalhar. Despede-se, como todos os dias, com aquelas frases idiotas.
- Tchau pablito! Cuida bien de nuestro hogar, mi querido!
- Si, si, si.
Claro que sim Vic; você manda... Ficarei para cuidar da tua casa. Tenho outra opção?
Fico sozinho toda tarde. Estou acostumado. Meu único prazer é aquela janela. Ela me traz um pouquinho do mundo que tive e perdi. É uma fresta por onde posso apreciar a vida, lá fora. Aqui dentro, não há vida. Tudo é um simulacro. Uma tristeza.
Vic, eu te odeio. Odeio por me aprisionar, por me amar sem amor de fato e por ter me dado este maldito nome Pablo para um passarinho brasileiro.
rubens bragarnich
Arre! Finalmente alguém chega nesta casa! Fico agitado quando chega alguém, não posso evitar. Depois passa...
- Hola Pablo, estás ahí?
- Si, si, si.
Claro que estou Vic... Eu não ia fugir, não é mesmo? Toda vez que você chega da rua me faz estas perguntas idiotas. Aonde eu iria?
Ela se aproxima de mim com a sua cara redonda e duas fileiras enormes, cheias de dentes grandes e alvos.
- Mi querido! Cariño mío, como estás, mi amor? Vayamos a oir música, Pablito – sai cantarolando em direção ao aparelho de som.
- Si, si, si.
Evidente que sim Vic, o que você quiser... Você é a dona da casa, lembra-se? Eu nunca me esqueço deste detalhe: ele condiciona a nossa relação.
O som rola com sotaque cubano.
Vic adora Compay Segundo, um mestre da velha guarda que encantou e ainda encanta o mundo mesclando suas canções com músicas tradicionais da Ilha. Vic veio adulta de Cuba onde conheceu Paulo Henrique, um brasileiro que tinha ido estudar Ciências Sociais na Universidade de Havana. Enamoram-se. Paixão pura. Ela sabia que ele jamais ficaria em Cuba. Vic abandonou o curso de Pedagogia e quando Paulo acabou a faculdade, ela veio com ele, casada. Depois de algum tempo no Brasil nasceu Martina, uma graça de menina! Há dois anos, Vic e Paulo Henrique se separaram e agora moramos nós três neste cubículo...
Daqui a pouco a van chega da escola trazendo Martina e a Vic já terá preparado o almoço. Com a Vic na cozinha, eu tenho um tempinho a mais de paz. Ando muito reflexivo ultimamente. Positivamente não gosto daqui! Estou farto! Sinto que também sou um estrangeiro, o que não é completamente falso; quer dizer, sou em parte. Explico: eu não nasci aqui; vim de fora, como a Vic, mas do interior do Brasil. Sou do mato. Eu vivia solto, livre... Passei meus primeiros tempos entre arbustos, árvores frutíferas, flores coloridas, poeira da terra... Havia a praçinha, água de bica, a venda, o armazém onde eu entrava furtivamente uma vez ou outra. Brincava sempre com prazer, alegria; sozinho ou com os meus irmãos... Não que não houvesse aqueles perigos quando se é pequeno, indefeso; havia sim, a vida sempre tem arapucas, mas com cuidado, eu conseguia me divertir. Ah! Que saudade... A natureza com suas cores e matizes! Mil azuis do céu pincelados com nuvens de tons diferentes de branco. Cheiros divinos! Sabores diversos! Sensações deliciosas do mato... A brisa suave, o Sol tênue dos fins de tarde; a chuva leve, de preferência… Ah! Não quero parecer um saudosista, mas eu realmente amava aqueles tempos, aqueles lugares... Podia não ser uma completa maravilha, mas era, digamos, mais natural.
Bem, depois... Depois me pegaram. Fui forçado; vim contra a minha vontade. Sofri. Nada pude fazer. Era muito pequeno; não consegui fugir. Fui trazido para cá. Eu tive que me adaptar à nova realidade, senão morreria. Aqui há muito barulho, cores feias, sujeira, muita gente, nada natural... É uma selva cinza de cimento. Até o céu é da cor de chumbo. O fato é que agora aqui estou: preso num apartamento de um dormitório com uma cubana e uma menina de cinco anos. O apartamento é minúsculo; eu durmo na sala e a Martina dorme com a mãe. Pelo menos tenho privacidade. Que adianta? Na muda nada.
Odeio tudo isso; odeio ter que enfrentar a carência afetiva da Vic que sobrecarrega a Martina e eu, mais a mim do que a menina. Sei que fiquei no lugar do Paulo. Não é fácil, não! De minha parte, tenho dado toda a atenção possível para a Vic; eu sei, ela precisa, está muito ferida. Mas há que se convir que às vezes é difícil dar conta dessa torrente de amor de uma mulher magoada, com uma filha pequena e morando fora do seu país.
- Pobrezito, estás con hambre! Cálmate, cariño. Sé el que le gusta! – ri feliz.
- Si, si, si.
Vic pensou em voltar várias vezes para Cuba; sofreu e chorou muito com a separação. Eu acompanhei tudo pois já estávamos juntos. Fiquei ao seu lado em sua dor. Meu coração ficava despedaçado, porém eu não pude dar mais do que minha atenção. Cheguei até cantar para ela várias vezes. Tinha a impressão que acalmava a Vic. Sua mãe, dona Etelvina, chegou a vir para cá com Madalena, a caçula, com intenção de levar filha e neta para casa, mas a Vic... A Vic é muito orgulhosa, não quis voltar derrotada para La Habana. Dizia-me sempre:
- Pablito, mírame bien, no desisto nunca; voy a trabajar, pelear, erigir mi vida. Bien… después si, creo que podré volver a Cuba. Volver como vencedora, como mi nombre Victoria enseña, no sabes? E assim tem sido a sua vida: luta sem trégua, luta renhida como se dizia antigamente.
Campainha soa e soam batidas ansiosas.
É a Martina que chegou. Que linda!
- Mamãe, mamãe. Estou com fome!
- Mi querida! Estaba esperándote! Bueno, primer de todo, hija mía, las manos... lávatelas y tome asiento. Hoy tenemos carne con legumes.
- Pablito, na escola eu fiz um desenho da nossa casa com você, eu e a mamãe e...
Martina continuou falando alguma coisa e correu para o banheiro obedecendo a mãe.
Almoço apertado na única sala do apartamento, sala multiuso: para comer, a Martina estudar, a Vic passar roupa, ver TV...
Depois do almoço Martina fica na casa da dona Gertrudes durante a tarde e Victoria pega a filha quando volta das aulas de espanhol. Eu fico por aqui. Como sempre. É minha sina. Queria tanto poder sair, poder dar os meus vôos pelo mundo, ser livre como fui um dia... Faltam-se os meios para luta, para me libertar. Diferente da Vic.
Toca a campainha.
- Olá Dona Gertrudes, espera un rat.., es decir, um minutinho... – Vic abre a porta e rapidamente traz a Martina do banheiro com os dentes escovados.
– Vete mi amor... Abaixa-se para beijá-la.
- Obedeça dona Gertrudes, heim?
- Pode llevar a minha niña, dona Gertrudes... Quando eu chegar eu passo en su departamento e pego a minha linda.
Ainda há tempo para Martina me fazer tchau com sua mãozinha antes de desaparecer levada pela vizinha. Vic fecha a porta e vai para o quarto se arrumar. Em poucos minutos ela já está na porta, maquiada, pronta para ir trabalhar. Despede-se, como todos os dias, com aquelas frases idiotas.
- Tchau pablito! Cuida bien de nuestro hogar, mi querido!
- Si, si, si.
Claro que sim Vic; você manda... Ficarei para cuidar da tua casa. Tenho outra opção?
Fico sozinho toda tarde. Estou acostumado. Meu único prazer é aquela janela. Ela me traz um pouquinho do mundo que tive e perdi. É uma fresta por onde posso apreciar a vida, lá fora. Aqui dentro, não há vida. Tudo é um simulacro. Uma tristeza.
Vic, eu te odeio. Odeio por me aprisionar, por me amar sem amor de fato e por ter me dado este maldito nome Pablo para um passarinho brasileiro.
rubens bragarnich
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Metanoia: Meandros de uma Crise Criativa
Monografia apresentada em junho de 2008 para obtenção do título de analista na Associação Junguiana do Brasil (AJB), filiada a International Association for Analytical Psychology (IAAP).
Resumo
O autor descreve o fenômeno da metanóia que demarca o início do processo de individuação na passagem para a segunda metade da vida, segundo a visão clássica junguiana. As características da metanóia envolvem crise e bloqueio da criatividade, com implicações em todas as áreas da vida pessoal. O autor valoriza a concepção energética psíquica e outras formulações teóricas de Jung para discutir o tema. Ilustra com a vivência de metanóia do próprio C.G. Jung, de Federico Fellini, através do clássico 8 ½ , e da sua experiência pessoal e clínica.
Palavras-chave: metanóia; crise; processo de individuação; etapas da vida; energia psíquica.
ABSTRACT
The author discusses metanoia phenomenon in the begining of the individuation process. The distintive quality of metanoia period envolves crisis, agony and obstruction of creativity that spreads for all aspects of the life. The author uses Jung’s energetic theory and other concepts and illustrates metanoia with Jung’s life, the Fellini’s masterpiece ‘Fellini 8 ½’, and his own personal and clinical experiences.
Keywords: metanoia; crisis; individuation process; life stages; psychic energy.
SUMÁRIO
Introdução
Capítulo I- Conceitos Básicos
Capítulo II- Metanóia
Capítulo III- Metanóia de Jung
Capítulo IV- Metanóia de Fellini
Capitulo V - Metanoia na Clínica
Capitulo VI - Metanóia do autor
Conclusão
Referências Bibliográficas e filmográfica
Apêndice A
Apêndice B
Anexo 1
(para ter acesso ao texto integral, fale comigo: bragarnich@uol.com.br)
Resumo
O autor descreve o fenômeno da metanóia que demarca o início do processo de individuação na passagem para a segunda metade da vida, segundo a visão clássica junguiana. As características da metanóia envolvem crise e bloqueio da criatividade, com implicações em todas as áreas da vida pessoal. O autor valoriza a concepção energética psíquica e outras formulações teóricas de Jung para discutir o tema. Ilustra com a vivência de metanóia do próprio C.G. Jung, de Federico Fellini, através do clássico 8 ½ , e da sua experiência pessoal e clínica.
Palavras-chave: metanóia; crise; processo de individuação; etapas da vida; energia psíquica.
ABSTRACT
The author discusses metanoia phenomenon in the begining of the individuation process. The distintive quality of metanoia period envolves crisis, agony and obstruction of creativity that spreads for all aspects of the life. The author uses Jung’s energetic theory and other concepts and illustrates metanoia with Jung’s life, the Fellini’s masterpiece ‘Fellini 8 ½’, and his own personal and clinical experiences.
Keywords: metanoia; crisis; individuation process; life stages; psychic energy.
SUMÁRIO
Introdução
Capítulo I- Conceitos Básicos
Capítulo II- Metanóia
Capítulo III- Metanóia de Jung
Capítulo IV- Metanóia de Fellini
Capitulo V - Metanoia na Clínica
Capitulo VI - Metanóia do autor
Conclusão
Referências Bibliográficas e filmográfica
Apêndice A
Apêndice B
Anexo 1
(para ter acesso ao texto integral, fale comigo: bragarnich@uol.com.br)
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Metanóia. Psicologia Analítica. Jung
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O SONHO DE SÓCRATES (*)
A minha intenção é discutir as interpretações de um sonho ocorrido em pleno século IV a.C., num contexto histórico bastante determinado, sonho este atribuído a Sócrates e que pode ser cotejado com alguns dos cânones da Psicologia Analítica contemporânea.
No Fédon Platão nos descreve o último dia da vida de Sócrates. Fédon conta a Equécrates como teria sido o ocaso do filósofo encerrado na prisão enquanto aguardava a execução da pena de morte a que fora condenado. Estariam presentes além do próprio narrador Fédon, alguns amigos e também gente de fora de Atenas, como Símias e Cebes, com os quais Sócrates discutirá o enfrentamento da morte, questões da alma e a vida espiritual.
Curiosamente Fédon menciona ao seu interlocutor que Platão não esteve presente naquele dia por estar doente. Xantipa, esposa de Sócrates, pronunciando “maldições e palavrórios que só as mulheres sabem proferir”, [§ 60a] e seu filho mais novo seriam levados o mais rapidamente para casa e o debate filosófico entre os amigos tomou lugar.
Ao ser interrogado por Cebes sobre o fato inédito de ter composto música na prisão, Sócrates responde falando sobre um sonho recorrente que tivera ao longo de sua vida como o motivo para as suas composições, o que é narrado logo nas primeiras páginas do Diálogo.
Explica Sócrates:
“ Eu os fiz em virtude de certos sonhos, cuja significação
pretendia assim descobrir, e também por escrúpulo religioso –
prevendo, sobretudo, a eventualidade de que as repetidas
prescrições que me foram feitas se relacionassem com o exercício
dessa espécie de poesia”. § 60e
Sobre o sonho, ele continua:
“ Eis como se passaram as coisas: várias vezes, no curso de minha
vida, fui visitado por um mesmo sonho; não era através da mesma
visão que ele sempre se manifestava, mas o que ele dizia era
invariável: “Só Sócrates”, dizia-me ele, “deves esforçar-te para
compor música!”” § 60e
Inicialmente podemos observar que Sócrates desprezou completamente as imagens dos sonhos (não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava...), valorizando exclusivamente a voz que dizia sempre a mesma coisa (..mas o que me dizia era invariável...). O que provavelmente ele fez foi reduzir as imagens de vários sonhos a uma única mensagem, perdendo a riqueza que poderia esclarecer os seus significados, fazendo deles um resumo de todos em somente um e com um mesmo significado.
Se assim for, então os conteúdos oníricos foram efetivamente reduzidos e achatados ao seu aspecto ideativo, racional e intelectual, na forma do comando: “deves esforçar-te para compor música!”, bem ao estilo de um tipo pensamento como certamente ele era. Aí já há uma determinação, um recorte específico do nosso filósofo a partir do seu viés tipológico e da tendência poderosamente intelectual da sua consciência.
Em sua primeira interpretação, Sócrates compreendeu o significado do sonho como uma exortação que reitera a tendência da sua atitude consciente, quer dizer, filosofar.
Diz Sócrates:
“...o sonho me exortava e me incitava a fazer o que justamente fiz
em minha vida passada. Assim como se animam corredores, também,
pensava eu, o sonho está a incitar-me para que eu perserve na
minha ação na minha ação, que é compor música:...”§ 61a
“...haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e
não é justamente isso o que eu faço?” - pergunta-se § 61a
Se assim fosse, a idéia da compensação postulada por Jung não estaria ocorrendo; o trabalho do inconsciente de produzir sonhos que reiterasse a atitude do Eu seria inócuo e não faria sentido dentro da lógica da auto-regulação energética.
Depois Sócrates irá reconsiderar a sua interpretação. Ele justifica a sua re-interpretação devido ao fato bastante significativo ocorrido no dia anterior ao seu julgamento e que gerou um adiamento na execução da sentença de morte. Havia uma lei vigente em Atenas que determinava a suspensão das condenações previstas enquanto durasse a peregrinação anual até Delos em honra a Apolo, pelo fato do deus ter ajudado Teseu a salvar jovens atenienses da sanha do Minotauro. Assim, a Cidade não poderia ser maculada por nenhuma morte até o retorno do navio do santuário de Delos. Desta maneira, a execução de sua pena foi adiada em torno de um mês, segundo Xenofonte.
Sócrates entendeu que este fato impediu a sua morte e reinterpreta o sonho de outra maneira, diametralmente oposta: compreende o seu sonho como uma ordem específica do deus e não quis desobedecer-lhe. Decide então, literalmente, compor.
Diz o filósofo:
“ E, por isso, minha primeira composição foi dedicada ao Deus em
cuja honra estava sendo realizado o sacrifício.” § 61 b
Aí teria musicado o hino a Apolo, ΕΙΣ ΑΠΟΛΛΩΝΑ, o deus da lira. O hino é na verdade um poema antiqüíssimo atribuído a Homero, dividido em duas partes contendo 546 versos ao todo, sendo os 178 iniciais dedicados a Apolo Délio narrando o seu nascimento e os demais dedicados a Apolo Pítio, celebrando a fundação do seu culto em Delfos, antiga Pitôn. Esses poemas eram recitados como prelúdio a solenidades religiosas ou em simples festivais religiosos e se prestavam a invocar o deus celebrado na ocasião.
E prossegue:
“Depois de haver prestado a minha homenagem ao Deus, julguei que
um poeta para ser verdadeiramente um poeta deve empregar mitos
e não raciocínios. Não me sentindo capaz de compor mitos, por
isso mesmo tomei por matéria de meus versos, na ordem em que me
vinham ocorrendo à lembrança, as fábulas ao meu alcance, as de
Esopo que eu sabia de cor.” § 61c
Aqui Sócrates vai mais além. Um poeta entrega-se aos assuntos da alma, e um filósofo, mais as do espírito. Isto significa que Sócrates diferenciou claramente a atividade racional do filósofo da atividade sensível do poeta e finalmente cedeu; na nossa linguagem ele tratou de atender ao chamado da sua psique, canalizando a sua energia literalmente para a música.
Como isso não devia ser muito fácil para ele, supriu a sua dificuldade no empreendimento poético, usando como guia algumas fábulas de Esopo que já eram famosas na Grécia em sua época. A música ativaria a sua função inferior, no caso a função sentimento.
Com relação ao tema da recorrência, presumimos que Sócrates tenha desenvolvido uma unilateralidade crônica na consciência.
Nós a imaginamos como uma identificação excessiva com o pensamento filosófico e que o seu psiquismo insistia, com sonhos repetitivos, em chamar a sua atenção para outros aspectos negligenciados da sua vida. Fica evidente que a sua psique ainda não havia perdido aquela capacidade de buscar o equilíbrio psicológico, o que costuma não funcionar bem em personalidades comprometidas.
O sonho, ao ser devidamente considerado, poderia exercer a sua função compensatória dentro da dinâmica de auto-regulação psíquica, tentando corrigir a unilateralidade atitudinal de Sócrates.
Isso pode tê-lo ajudado durante aqueles dias de prisão onde ocorria o seu encontro final consigo mesmo. A música pode ter trazido a vitalidade e a ventilação energética que a função inferior carreia para a personalidade total do indivíduo, integralizando-o.
Jung chegou a se manifestar a respeito do sonho de Sócrates narrado no Fédon numa carta-resposta a Hugo Charteris em 09.01.60, o qual compreendeu como manifestação do daimon do filósofo.
Escreve Jung:
“... Sócrates (...) deu ouvidos ao seu daimon e comprou
uma flauta (...), obedeceu humildemente à suave voz do
interior, entendendo-a literal e concretamente como uma
pessoa moderna. O daimon significa “música”, a arte do
sentimento, em oposição à sua constante preocupação com
o “ratio” da idade adolescente (...)”.
Adiante Jung lamenta o lugar do daimon que equipara a anima na vida moderna:
“Nós falamos, mas ele não diz nada; ele nem mesmo existe;
e, se existisse, não passaria de um erro patológico”.
Finaliza:
“Mas ao menos mostrou a única coisa valiosa: Para o
inferno com o mundo-ego! Escute a voz de seu daimon. Ele
tem a palavra agora, não você.”
A impressão que ficou da leitura do Fédon é que Sócrates morreu sereno, morreu em paz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APOLO, Hino a - <> acesso em: 25.01.07 às 12:53hs.
ESOPO – Fábulas – L&PM Editores, 2006, SP.
JUNG, C.G. – Cartas de C. G. Jung – vol. III, Ed. Vozes, 2003, RJ pág. 239, resposta
em 09/01/60 para Hugo Chateris.
__________ - Obras Completas de C.G.Jung – vol.XVI , Ed. Vozes, 1987, RJ.
PLATÃO – Diálogos – Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1972, SP.
(*) texto originalmente apresentado em forma de resumo para pôster no XV Congresso de Psicologia Analítica de 2007.
bragarnich@uol.com.br
No Fédon Platão nos descreve o último dia da vida de Sócrates. Fédon conta a Equécrates como teria sido o ocaso do filósofo encerrado na prisão enquanto aguardava a execução da pena de morte a que fora condenado. Estariam presentes além do próprio narrador Fédon, alguns amigos e também gente de fora de Atenas, como Símias e Cebes, com os quais Sócrates discutirá o enfrentamento da morte, questões da alma e a vida espiritual.
Curiosamente Fédon menciona ao seu interlocutor que Platão não esteve presente naquele dia por estar doente. Xantipa, esposa de Sócrates, pronunciando “maldições e palavrórios que só as mulheres sabem proferir”, [§ 60a] e seu filho mais novo seriam levados o mais rapidamente para casa e o debate filosófico entre os amigos tomou lugar.
Ao ser interrogado por Cebes sobre o fato inédito de ter composto música na prisão, Sócrates responde falando sobre um sonho recorrente que tivera ao longo de sua vida como o motivo para as suas composições, o que é narrado logo nas primeiras páginas do Diálogo.
Explica Sócrates:
“ Eu os fiz em virtude de certos sonhos, cuja significação
pretendia assim descobrir, e também por escrúpulo religioso –
prevendo, sobretudo, a eventualidade de que as repetidas
prescrições que me foram feitas se relacionassem com o exercício
dessa espécie de poesia”. § 60e
Sobre o sonho, ele continua:
“ Eis como se passaram as coisas: várias vezes, no curso de minha
vida, fui visitado por um mesmo sonho; não era através da mesma
visão que ele sempre se manifestava, mas o que ele dizia era
invariável: “Só Sócrates”, dizia-me ele, “deves esforçar-te para
compor música!”” § 60e
Inicialmente podemos observar que Sócrates desprezou completamente as imagens dos sonhos (não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava...), valorizando exclusivamente a voz que dizia sempre a mesma coisa (..mas o que me dizia era invariável...). O que provavelmente ele fez foi reduzir as imagens de vários sonhos a uma única mensagem, perdendo a riqueza que poderia esclarecer os seus significados, fazendo deles um resumo de todos em somente um e com um mesmo significado.
Se assim for, então os conteúdos oníricos foram efetivamente reduzidos e achatados ao seu aspecto ideativo, racional e intelectual, na forma do comando: “deves esforçar-te para compor música!”, bem ao estilo de um tipo pensamento como certamente ele era. Aí já há uma determinação, um recorte específico do nosso filósofo a partir do seu viés tipológico e da tendência poderosamente intelectual da sua consciência.
Em sua primeira interpretação, Sócrates compreendeu o significado do sonho como uma exortação que reitera a tendência da sua atitude consciente, quer dizer, filosofar.
Diz Sócrates:
“...o sonho me exortava e me incitava a fazer o que justamente fiz
em minha vida passada. Assim como se animam corredores, também,
pensava eu, o sonho está a incitar-me para que eu perserve na
minha ação na minha ação, que é compor música:...”§ 61a
“...haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e
não é justamente isso o que eu faço?” - pergunta-se § 61a
Se assim fosse, a idéia da compensação postulada por Jung não estaria ocorrendo; o trabalho do inconsciente de produzir sonhos que reiterasse a atitude do Eu seria inócuo e não faria sentido dentro da lógica da auto-regulação energética.
Depois Sócrates irá reconsiderar a sua interpretação. Ele justifica a sua re-interpretação devido ao fato bastante significativo ocorrido no dia anterior ao seu julgamento e que gerou um adiamento na execução da sentença de morte. Havia uma lei vigente em Atenas que determinava a suspensão das condenações previstas enquanto durasse a peregrinação anual até Delos em honra a Apolo, pelo fato do deus ter ajudado Teseu a salvar jovens atenienses da sanha do Minotauro. Assim, a Cidade não poderia ser maculada por nenhuma morte até o retorno do navio do santuário de Delos. Desta maneira, a execução de sua pena foi adiada em torno de um mês, segundo Xenofonte.
Sócrates entendeu que este fato impediu a sua morte e reinterpreta o sonho de outra maneira, diametralmente oposta: compreende o seu sonho como uma ordem específica do deus e não quis desobedecer-lhe. Decide então, literalmente, compor.
Diz o filósofo:
“ E, por isso, minha primeira composição foi dedicada ao Deus em
cuja honra estava sendo realizado o sacrifício.” § 61 b
Aí teria musicado o hino a Apolo, ΕΙΣ ΑΠΟΛΛΩΝΑ, o deus da lira. O hino é na verdade um poema antiqüíssimo atribuído a Homero, dividido em duas partes contendo 546 versos ao todo, sendo os 178 iniciais dedicados a Apolo Délio narrando o seu nascimento e os demais dedicados a Apolo Pítio, celebrando a fundação do seu culto em Delfos, antiga Pitôn. Esses poemas eram recitados como prelúdio a solenidades religiosas ou em simples festivais religiosos e se prestavam a invocar o deus celebrado na ocasião.
E prossegue:
“Depois de haver prestado a minha homenagem ao Deus, julguei que
um poeta para ser verdadeiramente um poeta deve empregar mitos
e não raciocínios. Não me sentindo capaz de compor mitos, por
isso mesmo tomei por matéria de meus versos, na ordem em que me
vinham ocorrendo à lembrança, as fábulas ao meu alcance, as de
Esopo que eu sabia de cor.” § 61c
Aqui Sócrates vai mais além. Um poeta entrega-se aos assuntos da alma, e um filósofo, mais as do espírito. Isto significa que Sócrates diferenciou claramente a atividade racional do filósofo da atividade sensível do poeta e finalmente cedeu; na nossa linguagem ele tratou de atender ao chamado da sua psique, canalizando a sua energia literalmente para a música.
Como isso não devia ser muito fácil para ele, supriu a sua dificuldade no empreendimento poético, usando como guia algumas fábulas de Esopo que já eram famosas na Grécia em sua época. A música ativaria a sua função inferior, no caso a função sentimento.
Com relação ao tema da recorrência, presumimos que Sócrates tenha desenvolvido uma unilateralidade crônica na consciência.
Nós a imaginamos como uma identificação excessiva com o pensamento filosófico e que o seu psiquismo insistia, com sonhos repetitivos, em chamar a sua atenção para outros aspectos negligenciados da sua vida. Fica evidente que a sua psique ainda não havia perdido aquela capacidade de buscar o equilíbrio psicológico, o que costuma não funcionar bem em personalidades comprometidas.
O sonho, ao ser devidamente considerado, poderia exercer a sua função compensatória dentro da dinâmica de auto-regulação psíquica, tentando corrigir a unilateralidade atitudinal de Sócrates.
Isso pode tê-lo ajudado durante aqueles dias de prisão onde ocorria o seu encontro final consigo mesmo. A música pode ter trazido a vitalidade e a ventilação energética que a função inferior carreia para a personalidade total do indivíduo, integralizando-o.
Jung chegou a se manifestar a respeito do sonho de Sócrates narrado no Fédon numa carta-resposta a Hugo Charteris em 09.01.60, o qual compreendeu como manifestação do daimon do filósofo.
Escreve Jung:
“... Sócrates (...) deu ouvidos ao seu daimon e comprou
uma flauta (...), obedeceu humildemente à suave voz do
interior, entendendo-a literal e concretamente como uma
pessoa moderna. O daimon significa “música”, a arte do
sentimento, em oposição à sua constante preocupação com
o “ratio” da idade adolescente (...)”.
Adiante Jung lamenta o lugar do daimon que equipara a anima na vida moderna:
“Nós falamos, mas ele não diz nada; ele nem mesmo existe;
e, se existisse, não passaria de um erro patológico”.
Finaliza:
“Mas ao menos mostrou a única coisa valiosa: Para o
inferno com o mundo-ego! Escute a voz de seu daimon. Ele
tem a palavra agora, não você.”
A impressão que ficou da leitura do Fédon é que Sócrates morreu sereno, morreu em paz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APOLO, Hino a - <> acesso em: 25.01.07 às 12:53hs.
ESOPO – Fábulas – L&PM Editores, 2006, SP.
JUNG, C.G. – Cartas de C. G. Jung – vol. III, Ed. Vozes, 2003, RJ pág. 239, resposta
em 09/01/60 para Hugo Chateris.
__________ - Obras Completas de C.G.Jung – vol.XVI , Ed. Vozes, 1987, RJ.
PLATÃO – Diálogos – Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1972, SP.
(*) texto originalmente apresentado em forma de resumo para pôster no XV Congresso de Psicologia Analítica de 2007.
bragarnich@uol.com.br
Marcadores:
Jung. Psicologia Analítica. Socrátes. Sonho
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
A psique inquieta é o eixo do mundo!
“...o tempo não pára, não pára..."
Cazuza
"_Aí, meu Deus! Aí, meu Deus!
Vou chegar muito atrasado!”
[Coelho Branco in Alice no País das Maravilhas]
Lewis Carroll
Inquietação!
Vivemos um período histórico de extraordinária aceleração do tempo, uma era de grande sinergia, dinamismo e movimento। Isso se espraia por todos os âmbitos da assim chamada civilização ocidental sendo perceptível através das dimensões do objetivo e do subjetivo, do material e do virtual, do social e do individual, do local e do global, do literal e do simbólico।
Esta aceleração foi detectada e tem sido estudada em profundidade nas Ciências Sociais, na Filosofia e na Psicologia Analítica, onde não passou despercebida ao olhar atento de James Hillman, Raphael López-Pedraza, Amnéris Maroni e de muitos outros.
Esta aceleração cultural é vista então como um fenômeno coletivo, claramente identificável, irregular em sua manifestação, mas consistente e irreversível.
Há uma certa concordância por todos os estudiosos que este ciclo histórico teve o seu inicio mais ou menos em torno da segunda metade do século XX. Ela tem se tornado um fator cada vez mais visível e evidente em nosso cotidiano, em todas as classes e estamentos sociais, sendo cada vez mais percebida e sentida nas médias e grandes cidades e é esmagadoramente evidente em megalópoles como São Paulo, onde exerço o meu trabalho clínico.
O processo adiantado do capitalismo já ao nível do acelerado processo da globalização econômica, com a implementação tecnológica geradora da fantástica evolução das mídias, da telefonia e do computador pessoal e de conseqüente uso comunicacional e informacional, interferiram excepcionalmente na experiência subjetiva do espaço e do tempo, variáveis absolutamente essenciais ao funcionamento e orientação da consciência individual e coletiva. Atingimos o estado de pleno emprego do tempo: aproveitamento excepcional das possibilidades latentes, modelagem comportamental para atingir o máximo da perfomance pessoal, ampliação e assimilação progressiva do “espaço” pelo incremento de tarefas, ações e compromissos diários, quantas vezes sobrepostos, simultâneos e substituíveis entre si.
Vivemos enredados no furor agendi para um hiper-aproveitamento existencial, pois este é o espírito do nosso tempo. Experimentamos uma espécie de “esticamento” do tempo para “caber tudo” e ainda assim sentimos que ele está correndo rápido, sempre vertiginoso... Jovens não querem dormir para não perder tempo; e de certa forma, hoje, todos nós também não queremos perder tempo, não queremos perder nada!! Falamos então, de fato, de uma revolução civilizatória e não mais apenas de uma civilização em transição, como nos dizia Jung em sua época; tentamos compreendê-la, explicá-la, nomeá-la: chamamos isso de Pós Modernidade ou Modernidade Tardia ou outro nomina.
O individuo contemporâneo percebe que a sua vida está mudando em todos os aspectos: nas relações interpessoais, nas relações de trabalho, na família, nas modificações rápidas dos costumes, na alimentação, nas novas maneiras de se lidar com o amor e com o sexo (nas assim chamadas relações líquidas), no espaço próximo de convivência, na experiência local e, ao mesmo tempo, na percepção maior da política e da economia, nacional e internacional, hoje muito mais interligadas.
O indivíduo deste novo tempo aprofunda as conquistas da modernidade: confia na razão, crê na evolução da técnica, se apóia nos avanços da medicina, vive perplexo e atônito com a complexidade e as contradições das relações do mundo do trabalho e do dinheiro; quando consegue, ele trabalha e trabalha demasiado. Mas invariavelmente sucumbe ao lodaçal do consumismo e na hiper-informação. As velhas utopias, fontes de referência e de significado, se esfacelaram enquanto as antigas tradições religiosas, ainda que cambaleantes, prosseguem perseverantes, geralmente na contramão desse processo cultural. As contradições e conflitos parecem cada vez mais acirrados.
À aceleração do tempo corresponde a retração ou encolhimento do espaço pelo processo paradoxal da sua gradativa assimilação e conquista: a capacidade organizacional, grupal ou individual de exercer o poder através da velocidade e da mobilidade, tanto física como virtual, se torna, surpreendentemente, um critério muito importante de status e de ascensão social; poder circular, poder adquirir serviços e espaços, movimentar-se concretamente ou virtualmente é o “bem de consumo” mais desejável. O mundo tornou-se literalmente pequeno!!As classes dominantes mapeiam o espaço urbano, redefinindo incessantemente a geografia da opulência com medidas de proteção e segurança, defendendo-se da movimentação intensa de indivíduos e coletividades excluídas. Jung não conheceu este novo tempo; ele o intuiu e formulou claras indicações de que o ciclo do aéon cristão estava se esgotando ao fim da era astrológica de Peixes; que estávamos as voltas com uma civilização em transição. Não pôde, entretanto, vivê-la; ele foi o profeta de grandes transformações que viriam e lançou os fundamentos para que pudéssemos tentar entendê-las.
É neste contexto cultural, multifacetado e complexo, onde encontramos o nosso sujeito como paciente em nossos consultórios. E como o encontramos? O que ele nos traz? Quais são os seus conflitos, os seus desejos? Quais são as suas queixas e o seu sofrimento? O que o inconsciente está expressando? O que dizem os seus sonhos? Será que a alma contemporânea se compraz com esta sinergia, movimento e velocidade, ela mesma criadora dessa condição? Esse esforço adaptativo num mundo em constante movimento; a importância da competência, a inevitabilidade da competição, a busca da excelência, a confiança na racionalidade, não são acompanhados de muito medo, desamparo, angústia e uma inquietação ansiosa intensa? Como compatibilizar o tempo individual kairótico e o tempo cronológico cultural?Nosso mundo é marcado em deslocamentos intensos de valores: da fé para o pensamento racional, do espiritual para a materialidade e consumo maníaco, da análise profunda para as psicoterapias objetivas ou seitas religiosas não raramente oportunistas; é o mundo ruidoso das soluções lógicas, competentes e principalmente rápidas.
O nosso paciente é o espelho perturbado de um mundo globalizado aparentemente conturbado, onde tudo parece possível, tangível, conquistável, muito embora esta ativação psíquica tenha mais é o condão de iludir e agitar a alma de cada um de nós pela falácia da opulência adquirível. A perturbação na alma do mundo parece corresponder à perturbação na anima que se expressa na interioridade individual; sua psique em geral está convulsionada pelo barulho dessa materialidade desmedida, dessa frustração constante; não há tempo para o silêncio, para a reflexão, para uma vivência interna profunda e significativa. A alma precisa de tempo e espaço com qualidade para ser cultivada, ainda que de novas e criativas maneiras; necessita sacrifício que ninguém parece estar disposto a oferecer mais; vive-se assim à deriva psicológica num mar de agitação e ansiedade. Será possível imaginarmos o labor alquímico feito em retorta aquecida em um forno de microondas?Nosso tempo certamente pode ser expresso simbolicamente através da imagem alquímica de uma ampla Solutio cultural, que em seu aspecto mais negativo, tende a incrementar a inconsciência, a liquidificar as relações e a diluir a alma na materialidade. Uma imagem clássica de Solutio é a travessia hebraica do Mar Vermelho, que pode nos servir como metáfora-guia dessa experiência coletiva viva.
Sobre ela, Jung menciona no Mysterium Coniunctionis o comentário gnóstico perático: “ O Mar Vermelho engoliu os egípcios, mas egípcios são todos os ignorantes...O Mar Vermelho é a água da morte para os inconscientes, mas para os que são conscientes, é a água batismal do renascimento e transcendência”.
Esta amplificação nos aponta diretamente para a idéia central de que não podemos perder de vista, nestes tempos, a importância fundamental daquele que é o valor humano mais precioso, qual seja, a liberdade, sob pena de permanecermos na escravidão dos Faraós ou afundarmos no inconsciente, sendo tragados pela materialidade e velocidade que dominam o mundo contemporâneo. Podemos olhar esta voracidade de tempo como uma manifestação do self, um pedido de socorro coletivo, da mesma forma que a neurose é um pedido de socorro da alma para o individuo, mas que pode não estar sendo ouvido ou compreendido em sua profundidade. As chances de destruição humana e do planeta talvez sejam a expressão desse pedido para que o homem pudesse parar e olhar verdadeiramente para si mesmo e re-descobrir a sua vocação no cosmos.Caminha-se assim apenas com a luz da esperança neste processo encerrado no mais absoluto e indecifrável mistério, sem perder a consciência da nossa natureza e do nosso destino, com a crença segundo a qual cada pequena transformação que ajudamos a promover com cada um dos nossos pacientes, contribui com a sua parcela para a alma do mundo.
Ubatuba (SP), 2005
Referências Bibliográficas
BAUMANN, Z. AMOR LÍQUIDO, Jorge Zahar Ed., RJ, 2003.BAUMANN, Z. Globalização e as conseqüências humanas,
EDINGER, E.F. The Mysterium Lectures, Canada, 1995, Inner City Books
GIEGERICH, W. Matanças, 1992, disponível em: http://www.rubedo.psc.br/
HILLMAN, J.; VENTURA, M. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior 1992, Summus EditorialJUNG, C.G. Obras Completas, vol.10, RJ, 1986, Ed.Vozes
LOPES-PEDRAZA, R. Ansiedade Cultural , Ed. Paulus, 2004
MORONI, A. Jung na era das catástrofes in Viver Mente&Corpo –Coleção Memória da Psicanálise, Duetto Editorial, ed. 2, 2005, págs. 30 e segs.
Cazuza
"_Aí, meu Deus! Aí, meu Deus!
Vou chegar muito atrasado!”
[Coelho Branco in Alice no País das Maravilhas]
Lewis Carroll
Inquietação!
Vivemos um período histórico de extraordinária aceleração do tempo, uma era de grande sinergia, dinamismo e movimento। Isso se espraia por todos os âmbitos da assim chamada civilização ocidental sendo perceptível através das dimensões do objetivo e do subjetivo, do material e do virtual, do social e do individual, do local e do global, do literal e do simbólico।
Esta aceleração foi detectada e tem sido estudada em profundidade nas Ciências Sociais, na Filosofia e na Psicologia Analítica, onde não passou despercebida ao olhar atento de James Hillman, Raphael López-Pedraza, Amnéris Maroni e de muitos outros.
Esta aceleração cultural é vista então como um fenômeno coletivo, claramente identificável, irregular em sua manifestação, mas consistente e irreversível.
Há uma certa concordância por todos os estudiosos que este ciclo histórico teve o seu inicio mais ou menos em torno da segunda metade do século XX. Ela tem se tornado um fator cada vez mais visível e evidente em nosso cotidiano, em todas as classes e estamentos sociais, sendo cada vez mais percebida e sentida nas médias e grandes cidades e é esmagadoramente evidente em megalópoles como São Paulo, onde exerço o meu trabalho clínico.
O processo adiantado do capitalismo já ao nível do acelerado processo da globalização econômica, com a implementação tecnológica geradora da fantástica evolução das mídias, da telefonia e do computador pessoal e de conseqüente uso comunicacional e informacional, interferiram excepcionalmente na experiência subjetiva do espaço e do tempo, variáveis absolutamente essenciais ao funcionamento e orientação da consciência individual e coletiva. Atingimos o estado de pleno emprego do tempo: aproveitamento excepcional das possibilidades latentes, modelagem comportamental para atingir o máximo da perfomance pessoal, ampliação e assimilação progressiva do “espaço” pelo incremento de tarefas, ações e compromissos diários, quantas vezes sobrepostos, simultâneos e substituíveis entre si.
Vivemos enredados no furor agendi para um hiper-aproveitamento existencial, pois este é o espírito do nosso tempo. Experimentamos uma espécie de “esticamento” do tempo para “caber tudo” e ainda assim sentimos que ele está correndo rápido, sempre vertiginoso... Jovens não querem dormir para não perder tempo; e de certa forma, hoje, todos nós também não queremos perder tempo, não queremos perder nada!! Falamos então, de fato, de uma revolução civilizatória e não mais apenas de uma civilização em transição, como nos dizia Jung em sua época; tentamos compreendê-la, explicá-la, nomeá-la: chamamos isso de Pós Modernidade ou Modernidade Tardia ou outro nomina.
O individuo contemporâneo percebe que a sua vida está mudando em todos os aspectos: nas relações interpessoais, nas relações de trabalho, na família, nas modificações rápidas dos costumes, na alimentação, nas novas maneiras de se lidar com o amor e com o sexo (nas assim chamadas relações líquidas), no espaço próximo de convivência, na experiência local e, ao mesmo tempo, na percepção maior da política e da economia, nacional e internacional, hoje muito mais interligadas.
O indivíduo deste novo tempo aprofunda as conquistas da modernidade: confia na razão, crê na evolução da técnica, se apóia nos avanços da medicina, vive perplexo e atônito com a complexidade e as contradições das relações do mundo do trabalho e do dinheiro; quando consegue, ele trabalha e trabalha demasiado. Mas invariavelmente sucumbe ao lodaçal do consumismo e na hiper-informação. As velhas utopias, fontes de referência e de significado, se esfacelaram enquanto as antigas tradições religiosas, ainda que cambaleantes, prosseguem perseverantes, geralmente na contramão desse processo cultural. As contradições e conflitos parecem cada vez mais acirrados.
À aceleração do tempo corresponde a retração ou encolhimento do espaço pelo processo paradoxal da sua gradativa assimilação e conquista: a capacidade organizacional, grupal ou individual de exercer o poder através da velocidade e da mobilidade, tanto física como virtual, se torna, surpreendentemente, um critério muito importante de status e de ascensão social; poder circular, poder adquirir serviços e espaços, movimentar-se concretamente ou virtualmente é o “bem de consumo” mais desejável. O mundo tornou-se literalmente pequeno!!As classes dominantes mapeiam o espaço urbano, redefinindo incessantemente a geografia da opulência com medidas de proteção e segurança, defendendo-se da movimentação intensa de indivíduos e coletividades excluídas. Jung não conheceu este novo tempo; ele o intuiu e formulou claras indicações de que o ciclo do aéon cristão estava se esgotando ao fim da era astrológica de Peixes; que estávamos as voltas com uma civilização em transição. Não pôde, entretanto, vivê-la; ele foi o profeta de grandes transformações que viriam e lançou os fundamentos para que pudéssemos tentar entendê-las.
É neste contexto cultural, multifacetado e complexo, onde encontramos o nosso sujeito como paciente em nossos consultórios. E como o encontramos? O que ele nos traz? Quais são os seus conflitos, os seus desejos? Quais são as suas queixas e o seu sofrimento? O que o inconsciente está expressando? O que dizem os seus sonhos? Será que a alma contemporânea se compraz com esta sinergia, movimento e velocidade, ela mesma criadora dessa condição? Esse esforço adaptativo num mundo em constante movimento; a importância da competência, a inevitabilidade da competição, a busca da excelência, a confiança na racionalidade, não são acompanhados de muito medo, desamparo, angústia e uma inquietação ansiosa intensa? Como compatibilizar o tempo individual kairótico e o tempo cronológico cultural?Nosso mundo é marcado em deslocamentos intensos de valores: da fé para o pensamento racional, do espiritual para a materialidade e consumo maníaco, da análise profunda para as psicoterapias objetivas ou seitas religiosas não raramente oportunistas; é o mundo ruidoso das soluções lógicas, competentes e principalmente rápidas.
O nosso paciente é o espelho perturbado de um mundo globalizado aparentemente conturbado, onde tudo parece possível, tangível, conquistável, muito embora esta ativação psíquica tenha mais é o condão de iludir e agitar a alma de cada um de nós pela falácia da opulência adquirível. A perturbação na alma do mundo parece corresponder à perturbação na anima que se expressa na interioridade individual; sua psique em geral está convulsionada pelo barulho dessa materialidade desmedida, dessa frustração constante; não há tempo para o silêncio, para a reflexão, para uma vivência interna profunda e significativa. A alma precisa de tempo e espaço com qualidade para ser cultivada, ainda que de novas e criativas maneiras; necessita sacrifício que ninguém parece estar disposto a oferecer mais; vive-se assim à deriva psicológica num mar de agitação e ansiedade. Será possível imaginarmos o labor alquímico feito em retorta aquecida em um forno de microondas?Nosso tempo certamente pode ser expresso simbolicamente através da imagem alquímica de uma ampla Solutio cultural, que em seu aspecto mais negativo, tende a incrementar a inconsciência, a liquidificar as relações e a diluir a alma na materialidade. Uma imagem clássica de Solutio é a travessia hebraica do Mar Vermelho, que pode nos servir como metáfora-guia dessa experiência coletiva viva.
Sobre ela, Jung menciona no Mysterium Coniunctionis o comentário gnóstico perático: “ O Mar Vermelho engoliu os egípcios, mas egípcios são todos os ignorantes...O Mar Vermelho é a água da morte para os inconscientes, mas para os que são conscientes, é a água batismal do renascimento e transcendência”.
Esta amplificação nos aponta diretamente para a idéia central de que não podemos perder de vista, nestes tempos, a importância fundamental daquele que é o valor humano mais precioso, qual seja, a liberdade, sob pena de permanecermos na escravidão dos Faraós ou afundarmos no inconsciente, sendo tragados pela materialidade e velocidade que dominam o mundo contemporâneo. Podemos olhar esta voracidade de tempo como uma manifestação do self, um pedido de socorro coletivo, da mesma forma que a neurose é um pedido de socorro da alma para o individuo, mas que pode não estar sendo ouvido ou compreendido em sua profundidade. As chances de destruição humana e do planeta talvez sejam a expressão desse pedido para que o homem pudesse parar e olhar verdadeiramente para si mesmo e re-descobrir a sua vocação no cosmos.Caminha-se assim apenas com a luz da esperança neste processo encerrado no mais absoluto e indecifrável mistério, sem perder a consciência da nossa natureza e do nosso destino, com a crença segundo a qual cada pequena transformação que ajudamos a promover com cada um dos nossos pacientes, contribui com a sua parcela para a alma do mundo.
Ubatuba (SP), 2005
Referências Bibliográficas
BAUMANN, Z. AMOR LÍQUIDO, Jorge Zahar Ed., RJ, 2003.BAUMANN, Z. Globalização e as conseqüências humanas,
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HILLMAN, J.; VENTURA, M. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior 1992, Summus EditorialJUNG, C.G. Obras Completas, vol.10, RJ, 1986, Ed.Vozes
LOPES-PEDRAZA, R. Ansiedade Cultural , Ed. Paulus, 2004
MORONI, A. Jung na era das catástrofes in Viver Mente&Corpo –Coleção Memória da Psicanálise, Duetto Editorial, ed. 2, 2005, págs. 30 e segs.
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