Ruído na fechadura da porta da rua.
Arre! Finalmente alguém chega nesta casa! Fico agitado quando chega alguém, não posso evitar. Depois passa...
- Hola Pablo, estás ahí?
- Si, si, si.
Claro que estou Vic... Eu não ia fugir, não é mesmo? Toda vez que você chega da rua me faz estas perguntas idiotas. Aonde eu iria?
Ela se aproxima de mim com a sua cara redonda e duas fileiras enormes, cheias de dentes grandes e alvos.
- Mi querido! Cariño mío, como estás, mi amor? Vayamos a oir música, Pablito – sai cantarolando em direção ao aparelho de som.
- Si, si, si.
Evidente que sim Vic, o que você quiser... Você é a dona da casa, lembra-se? Eu nunca me esqueço deste detalhe: ele condiciona a nossa relação.
O som rola com sotaque cubano.
Vic adora Compay Segundo, um mestre da velha guarda que encantou e ainda encanta o mundo mesclando suas canções com músicas tradicionais da Ilha. Vic veio adulta de Cuba onde conheceu Paulo Henrique, um brasileiro que tinha ido estudar Ciências Sociais na Universidade de Havana. Enamoram-se. Paixão pura. Ela sabia que ele jamais ficaria em Cuba. Vic abandonou o curso de Pedagogia e quando Paulo acabou a faculdade, ela veio com ele, casada. Depois de algum tempo no Brasil nasceu Martina, uma graça de menina! Há dois anos, Vic e Paulo Henrique se separaram e agora moramos nós três neste cubículo...
Daqui a pouco a van chega da escola trazendo Martina e a Vic já terá preparado o almoço. Com a Vic na cozinha, eu tenho um tempinho a mais de paz. Ando muito reflexivo ultimamente. Positivamente não gosto daqui! Estou farto! Sinto que também sou um estrangeiro, o que não é completamente falso; quer dizer, sou em parte. Explico: eu não nasci aqui; vim de fora, como a Vic, mas do interior do Brasil. Sou do mato. Eu vivia solto, livre... Passei meus primeiros tempos entre arbustos, árvores frutíferas, flores coloridas, poeira da terra... Havia a praçinha, água de bica, a venda, o armazém onde eu entrava furtivamente uma vez ou outra. Brincava sempre com prazer, alegria; sozinho ou com os meus irmãos... Não que não houvesse aqueles perigos quando se é pequeno, indefeso; havia sim, a vida sempre tem arapucas, mas com cuidado, eu conseguia me divertir. Ah! Que saudade... A natureza com suas cores e matizes! Mil azuis do céu pincelados com nuvens de tons diferentes de branco. Cheiros divinos! Sabores diversos! Sensações deliciosas do mato... A brisa suave, o Sol tênue dos fins de tarde; a chuva leve, de preferência… Ah! Não quero parecer um saudosista, mas eu realmente amava aqueles tempos, aqueles lugares... Podia não ser uma completa maravilha, mas era, digamos, mais natural.
Bem, depois... Depois me pegaram. Fui forçado; vim contra a minha vontade. Sofri. Nada pude fazer. Era muito pequeno; não consegui fugir. Fui trazido para cá. Eu tive que me adaptar à nova realidade, senão morreria. Aqui há muito barulho, cores feias, sujeira, muita gente, nada natural... É uma selva cinza de cimento. Até o céu é da cor de chumbo. O fato é que agora aqui estou: preso num apartamento de um dormitório com uma cubana e uma menina de cinco anos. O apartamento é minúsculo; eu durmo na sala e a Martina dorme com a mãe. Pelo menos tenho privacidade. Que adianta? Na muda nada.
Odeio tudo isso; odeio ter que enfrentar a carência afetiva da Vic que sobrecarrega a Martina e eu, mais a mim do que a menina. Sei que fiquei no lugar do Paulo. Não é fácil, não! De minha parte, tenho dado toda a atenção possível para a Vic; eu sei, ela precisa, está muito ferida. Mas há que se convir que às vezes é difícil dar conta dessa torrente de amor de uma mulher magoada, com uma filha pequena e morando fora do seu país.
- Pobrezito, estás con hambre! Cálmate, cariño. Sé el que le gusta! – ri feliz.
- Si, si, si.
Vic pensou em voltar várias vezes para Cuba; sofreu e chorou muito com a separação. Eu acompanhei tudo pois já estávamos juntos. Fiquei ao seu lado em sua dor. Meu coração ficava despedaçado, porém eu não pude dar mais do que minha atenção. Cheguei até cantar para ela várias vezes. Tinha a impressão que acalmava a Vic. Sua mãe, dona Etelvina, chegou a vir para cá com Madalena, a caçula, com intenção de levar filha e neta para casa, mas a Vic... A Vic é muito orgulhosa, não quis voltar derrotada para La Habana. Dizia-me sempre:
- Pablito, mírame bien, no desisto nunca; voy a trabajar, pelear, erigir mi vida. Bien… después si, creo que podré volver a Cuba. Volver como vencedora, como mi nombre Victoria enseña, no sabes? E assim tem sido a sua vida: luta sem trégua, luta renhida como se dizia antigamente.
Campainha soa e soam batidas ansiosas.
É a Martina que chegou. Que linda!
- Mamãe, mamãe. Estou com fome!
- Mi querida! Estaba esperándote! Bueno, primer de todo, hija mía, las manos... lávatelas y tome asiento. Hoy tenemos carne con legumes.
- Pablito, na escola eu fiz um desenho da nossa casa com você, eu e a mamãe e...
Martina continuou falando alguma coisa e correu para o banheiro obedecendo a mãe.
Almoço apertado na única sala do apartamento, sala multiuso: para comer, a Martina estudar, a Vic passar roupa, ver TV...
Depois do almoço Martina fica na casa da dona Gertrudes durante a tarde e Victoria pega a filha quando volta das aulas de espanhol. Eu fico por aqui. Como sempre. É minha sina. Queria tanto poder sair, poder dar os meus vôos pelo mundo, ser livre como fui um dia... Faltam-se os meios para luta, para me libertar. Diferente da Vic.
Toca a campainha.
- Olá Dona Gertrudes, espera un rat.., es decir, um minutinho... – Vic abre a porta e rapidamente traz a Martina do banheiro com os dentes escovados.
– Vete mi amor... Abaixa-se para beijá-la.
- Obedeça dona Gertrudes, heim?
- Pode llevar a minha niña, dona Gertrudes... Quando eu chegar eu passo en su departamento e pego a minha linda.
Ainda há tempo para Martina me fazer tchau com sua mãozinha antes de desaparecer levada pela vizinha. Vic fecha a porta e vai para o quarto se arrumar. Em poucos minutos ela já está na porta, maquiada, pronta para ir trabalhar. Despede-se, como todos os dias, com aquelas frases idiotas.
- Tchau pablito! Cuida bien de nuestro hogar, mi querido!
- Si, si, si.
Claro que sim Vic; você manda... Ficarei para cuidar da tua casa. Tenho outra opção?
Fico sozinho toda tarde. Estou acostumado. Meu único prazer é aquela janela. Ela me traz um pouquinho do mundo que tive e perdi. É uma fresta por onde posso apreciar a vida, lá fora. Aqui dentro, não há vida. Tudo é um simulacro. Uma tristeza.
Vic, eu te odeio. Odeio por me aprisionar, por me amar sem amor de fato e por ter me dado este maldito nome Pablo para um passarinho brasileiro.
rubens bragarnich
terça-feira, 30 de setembro de 2008
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Metanoia: Meandros de uma Crise Criativa
Monografia apresentada em junho de 2008 para obtenção do título de analista na Associação Junguiana do Brasil (AJB), filiada a International Association for Analytical Psychology (IAAP).
Resumo
O autor descreve o fenômeno da metanóia que demarca o início do processo de individuação na passagem para a segunda metade da vida, segundo a visão clássica junguiana. As características da metanóia envolvem crise e bloqueio da criatividade, com implicações em todas as áreas da vida pessoal. O autor valoriza a concepção energética psíquica e outras formulações teóricas de Jung para discutir o tema. Ilustra com a vivência de metanóia do próprio C.G. Jung, de Federico Fellini, através do clássico 8 ½ , e da sua experiência pessoal e clínica.
Palavras-chave: metanóia; crise; processo de individuação; etapas da vida; energia psíquica.
ABSTRACT
The author discusses metanoia phenomenon in the begining of the individuation process. The distintive quality of metanoia period envolves crisis, agony and obstruction of creativity that spreads for all aspects of the life. The author uses Jung’s energetic theory and other concepts and illustrates metanoia with Jung’s life, the Fellini’s masterpiece ‘Fellini 8 ½’, and his own personal and clinical experiences.
Keywords: metanoia; crisis; individuation process; life stages; psychic energy.
SUMÁRIO
Introdução
Capítulo I- Conceitos Básicos
Capítulo II- Metanóia
Capítulo III- Metanóia de Jung
Capítulo IV- Metanóia de Fellini
Capitulo V - Metanoia na Clínica
Capitulo VI - Metanóia do autor
Conclusão
Referências Bibliográficas e filmográfica
Apêndice A
Apêndice B
Anexo 1
(para ter acesso ao texto integral, fale comigo: bragarnich@uol.com.br)
Resumo
O autor descreve o fenômeno da metanóia que demarca o início do processo de individuação na passagem para a segunda metade da vida, segundo a visão clássica junguiana. As características da metanóia envolvem crise e bloqueio da criatividade, com implicações em todas as áreas da vida pessoal. O autor valoriza a concepção energética psíquica e outras formulações teóricas de Jung para discutir o tema. Ilustra com a vivência de metanóia do próprio C.G. Jung, de Federico Fellini, através do clássico 8 ½ , e da sua experiência pessoal e clínica.
Palavras-chave: metanóia; crise; processo de individuação; etapas da vida; energia psíquica.
ABSTRACT
The author discusses metanoia phenomenon in the begining of the individuation process. The distintive quality of metanoia period envolves crisis, agony and obstruction of creativity that spreads for all aspects of the life. The author uses Jung’s energetic theory and other concepts and illustrates metanoia with Jung’s life, the Fellini’s masterpiece ‘Fellini 8 ½’, and his own personal and clinical experiences.
Keywords: metanoia; crisis; individuation process; life stages; psychic energy.
SUMÁRIO
Introdução
Capítulo I- Conceitos Básicos
Capítulo II- Metanóia
Capítulo III- Metanóia de Jung
Capítulo IV- Metanóia de Fellini
Capitulo V - Metanoia na Clínica
Capitulo VI - Metanóia do autor
Conclusão
Referências Bibliográficas e filmográfica
Apêndice A
Apêndice B
Anexo 1
(para ter acesso ao texto integral, fale comigo: bragarnich@uol.com.br)
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Metanóia. Psicologia Analítica. Jung
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O SONHO DE SÓCRATES (*)
A minha intenção é discutir as interpretações de um sonho ocorrido em pleno século IV a.C., num contexto histórico bastante determinado, sonho este atribuído a Sócrates e que pode ser cotejado com alguns dos cânones da Psicologia Analítica contemporânea.
No Fédon Platão nos descreve o último dia da vida de Sócrates. Fédon conta a Equécrates como teria sido o ocaso do filósofo encerrado na prisão enquanto aguardava a execução da pena de morte a que fora condenado. Estariam presentes além do próprio narrador Fédon, alguns amigos e também gente de fora de Atenas, como Símias e Cebes, com os quais Sócrates discutirá o enfrentamento da morte, questões da alma e a vida espiritual.
Curiosamente Fédon menciona ao seu interlocutor que Platão não esteve presente naquele dia por estar doente. Xantipa, esposa de Sócrates, pronunciando “maldições e palavrórios que só as mulheres sabem proferir”, [§ 60a] e seu filho mais novo seriam levados o mais rapidamente para casa e o debate filosófico entre os amigos tomou lugar.
Ao ser interrogado por Cebes sobre o fato inédito de ter composto música na prisão, Sócrates responde falando sobre um sonho recorrente que tivera ao longo de sua vida como o motivo para as suas composições, o que é narrado logo nas primeiras páginas do Diálogo.
Explica Sócrates:
“ Eu os fiz em virtude de certos sonhos, cuja significação
pretendia assim descobrir, e também por escrúpulo religioso –
prevendo, sobretudo, a eventualidade de que as repetidas
prescrições que me foram feitas se relacionassem com o exercício
dessa espécie de poesia”. § 60e
Sobre o sonho, ele continua:
“ Eis como se passaram as coisas: várias vezes, no curso de minha
vida, fui visitado por um mesmo sonho; não era através da mesma
visão que ele sempre se manifestava, mas o que ele dizia era
invariável: “Só Sócrates”, dizia-me ele, “deves esforçar-te para
compor música!”” § 60e
Inicialmente podemos observar que Sócrates desprezou completamente as imagens dos sonhos (não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava...), valorizando exclusivamente a voz que dizia sempre a mesma coisa (..mas o que me dizia era invariável...). O que provavelmente ele fez foi reduzir as imagens de vários sonhos a uma única mensagem, perdendo a riqueza que poderia esclarecer os seus significados, fazendo deles um resumo de todos em somente um e com um mesmo significado.
Se assim for, então os conteúdos oníricos foram efetivamente reduzidos e achatados ao seu aspecto ideativo, racional e intelectual, na forma do comando: “deves esforçar-te para compor música!”, bem ao estilo de um tipo pensamento como certamente ele era. Aí já há uma determinação, um recorte específico do nosso filósofo a partir do seu viés tipológico e da tendência poderosamente intelectual da sua consciência.
Em sua primeira interpretação, Sócrates compreendeu o significado do sonho como uma exortação que reitera a tendência da sua atitude consciente, quer dizer, filosofar.
Diz Sócrates:
“...o sonho me exortava e me incitava a fazer o que justamente fiz
em minha vida passada. Assim como se animam corredores, também,
pensava eu, o sonho está a incitar-me para que eu perserve na
minha ação na minha ação, que é compor música:...”§ 61a
“...haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e
não é justamente isso o que eu faço?” - pergunta-se § 61a
Se assim fosse, a idéia da compensação postulada por Jung não estaria ocorrendo; o trabalho do inconsciente de produzir sonhos que reiterasse a atitude do Eu seria inócuo e não faria sentido dentro da lógica da auto-regulação energética.
Depois Sócrates irá reconsiderar a sua interpretação. Ele justifica a sua re-interpretação devido ao fato bastante significativo ocorrido no dia anterior ao seu julgamento e que gerou um adiamento na execução da sentença de morte. Havia uma lei vigente em Atenas que determinava a suspensão das condenações previstas enquanto durasse a peregrinação anual até Delos em honra a Apolo, pelo fato do deus ter ajudado Teseu a salvar jovens atenienses da sanha do Minotauro. Assim, a Cidade não poderia ser maculada por nenhuma morte até o retorno do navio do santuário de Delos. Desta maneira, a execução de sua pena foi adiada em torno de um mês, segundo Xenofonte.
Sócrates entendeu que este fato impediu a sua morte e reinterpreta o sonho de outra maneira, diametralmente oposta: compreende o seu sonho como uma ordem específica do deus e não quis desobedecer-lhe. Decide então, literalmente, compor.
Diz o filósofo:
“ E, por isso, minha primeira composição foi dedicada ao Deus em
cuja honra estava sendo realizado o sacrifício.” § 61 b
Aí teria musicado o hino a Apolo, ΕΙΣ ΑΠΟΛΛΩΝΑ, o deus da lira. O hino é na verdade um poema antiqüíssimo atribuído a Homero, dividido em duas partes contendo 546 versos ao todo, sendo os 178 iniciais dedicados a Apolo Délio narrando o seu nascimento e os demais dedicados a Apolo Pítio, celebrando a fundação do seu culto em Delfos, antiga Pitôn. Esses poemas eram recitados como prelúdio a solenidades religiosas ou em simples festivais religiosos e se prestavam a invocar o deus celebrado na ocasião.
E prossegue:
“Depois de haver prestado a minha homenagem ao Deus, julguei que
um poeta para ser verdadeiramente um poeta deve empregar mitos
e não raciocínios. Não me sentindo capaz de compor mitos, por
isso mesmo tomei por matéria de meus versos, na ordem em que me
vinham ocorrendo à lembrança, as fábulas ao meu alcance, as de
Esopo que eu sabia de cor.” § 61c
Aqui Sócrates vai mais além. Um poeta entrega-se aos assuntos da alma, e um filósofo, mais as do espírito. Isto significa que Sócrates diferenciou claramente a atividade racional do filósofo da atividade sensível do poeta e finalmente cedeu; na nossa linguagem ele tratou de atender ao chamado da sua psique, canalizando a sua energia literalmente para a música.
Como isso não devia ser muito fácil para ele, supriu a sua dificuldade no empreendimento poético, usando como guia algumas fábulas de Esopo que já eram famosas na Grécia em sua época. A música ativaria a sua função inferior, no caso a função sentimento.
Com relação ao tema da recorrência, presumimos que Sócrates tenha desenvolvido uma unilateralidade crônica na consciência.
Nós a imaginamos como uma identificação excessiva com o pensamento filosófico e que o seu psiquismo insistia, com sonhos repetitivos, em chamar a sua atenção para outros aspectos negligenciados da sua vida. Fica evidente que a sua psique ainda não havia perdido aquela capacidade de buscar o equilíbrio psicológico, o que costuma não funcionar bem em personalidades comprometidas.
O sonho, ao ser devidamente considerado, poderia exercer a sua função compensatória dentro da dinâmica de auto-regulação psíquica, tentando corrigir a unilateralidade atitudinal de Sócrates.
Isso pode tê-lo ajudado durante aqueles dias de prisão onde ocorria o seu encontro final consigo mesmo. A música pode ter trazido a vitalidade e a ventilação energética que a função inferior carreia para a personalidade total do indivíduo, integralizando-o.
Jung chegou a se manifestar a respeito do sonho de Sócrates narrado no Fédon numa carta-resposta a Hugo Charteris em 09.01.60, o qual compreendeu como manifestação do daimon do filósofo.
Escreve Jung:
“... Sócrates (...) deu ouvidos ao seu daimon e comprou
uma flauta (...), obedeceu humildemente à suave voz do
interior, entendendo-a literal e concretamente como uma
pessoa moderna. O daimon significa “música”, a arte do
sentimento, em oposição à sua constante preocupação com
o “ratio” da idade adolescente (...)”.
Adiante Jung lamenta o lugar do daimon que equipara a anima na vida moderna:
“Nós falamos, mas ele não diz nada; ele nem mesmo existe;
e, se existisse, não passaria de um erro patológico”.
Finaliza:
“Mas ao menos mostrou a única coisa valiosa: Para o
inferno com o mundo-ego! Escute a voz de seu daimon. Ele
tem a palavra agora, não você.”
A impressão que ficou da leitura do Fédon é que Sócrates morreu sereno, morreu em paz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APOLO, Hino a - <> acesso em: 25.01.07 às 12:53hs.
ESOPO – Fábulas – L&PM Editores, 2006, SP.
JUNG, C.G. – Cartas de C. G. Jung – vol. III, Ed. Vozes, 2003, RJ pág. 239, resposta
em 09/01/60 para Hugo Chateris.
__________ - Obras Completas de C.G.Jung – vol.XVI , Ed. Vozes, 1987, RJ.
PLATÃO – Diálogos – Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1972, SP.
(*) texto originalmente apresentado em forma de resumo para pôster no XV Congresso de Psicologia Analítica de 2007.
bragarnich@uol.com.br
No Fédon Platão nos descreve o último dia da vida de Sócrates. Fédon conta a Equécrates como teria sido o ocaso do filósofo encerrado na prisão enquanto aguardava a execução da pena de morte a que fora condenado. Estariam presentes além do próprio narrador Fédon, alguns amigos e também gente de fora de Atenas, como Símias e Cebes, com os quais Sócrates discutirá o enfrentamento da morte, questões da alma e a vida espiritual.
Curiosamente Fédon menciona ao seu interlocutor que Platão não esteve presente naquele dia por estar doente. Xantipa, esposa de Sócrates, pronunciando “maldições e palavrórios que só as mulheres sabem proferir”, [§ 60a] e seu filho mais novo seriam levados o mais rapidamente para casa e o debate filosófico entre os amigos tomou lugar.
Ao ser interrogado por Cebes sobre o fato inédito de ter composto música na prisão, Sócrates responde falando sobre um sonho recorrente que tivera ao longo de sua vida como o motivo para as suas composições, o que é narrado logo nas primeiras páginas do Diálogo.
Explica Sócrates:
“ Eu os fiz em virtude de certos sonhos, cuja significação
pretendia assim descobrir, e também por escrúpulo religioso –
prevendo, sobretudo, a eventualidade de que as repetidas
prescrições que me foram feitas se relacionassem com o exercício
dessa espécie de poesia”. § 60e
Sobre o sonho, ele continua:
“ Eis como se passaram as coisas: várias vezes, no curso de minha
vida, fui visitado por um mesmo sonho; não era através da mesma
visão que ele sempre se manifestava, mas o que ele dizia era
invariável: “Só Sócrates”, dizia-me ele, “deves esforçar-te para
compor música!”” § 60e
Inicialmente podemos observar que Sócrates desprezou completamente as imagens dos sonhos (não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava...), valorizando exclusivamente a voz que dizia sempre a mesma coisa (..mas o que me dizia era invariável...). O que provavelmente ele fez foi reduzir as imagens de vários sonhos a uma única mensagem, perdendo a riqueza que poderia esclarecer os seus significados, fazendo deles um resumo de todos em somente um e com um mesmo significado.
Se assim for, então os conteúdos oníricos foram efetivamente reduzidos e achatados ao seu aspecto ideativo, racional e intelectual, na forma do comando: “deves esforçar-te para compor música!”, bem ao estilo de um tipo pensamento como certamente ele era. Aí já há uma determinação, um recorte específico do nosso filósofo a partir do seu viés tipológico e da tendência poderosamente intelectual da sua consciência.
Em sua primeira interpretação, Sócrates compreendeu o significado do sonho como uma exortação que reitera a tendência da sua atitude consciente, quer dizer, filosofar.
Diz Sócrates:
“...o sonho me exortava e me incitava a fazer o que justamente fiz
em minha vida passada. Assim como se animam corredores, também,
pensava eu, o sonho está a incitar-me para que eu perserve na
minha ação na minha ação, que é compor música:...”§ 61a
“...haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e
não é justamente isso o que eu faço?” - pergunta-se § 61a
Se assim fosse, a idéia da compensação postulada por Jung não estaria ocorrendo; o trabalho do inconsciente de produzir sonhos que reiterasse a atitude do Eu seria inócuo e não faria sentido dentro da lógica da auto-regulação energética.
Depois Sócrates irá reconsiderar a sua interpretação. Ele justifica a sua re-interpretação devido ao fato bastante significativo ocorrido no dia anterior ao seu julgamento e que gerou um adiamento na execução da sentença de morte. Havia uma lei vigente em Atenas que determinava a suspensão das condenações previstas enquanto durasse a peregrinação anual até Delos em honra a Apolo, pelo fato do deus ter ajudado Teseu a salvar jovens atenienses da sanha do Minotauro. Assim, a Cidade não poderia ser maculada por nenhuma morte até o retorno do navio do santuário de Delos. Desta maneira, a execução de sua pena foi adiada em torno de um mês, segundo Xenofonte.
Sócrates entendeu que este fato impediu a sua morte e reinterpreta o sonho de outra maneira, diametralmente oposta: compreende o seu sonho como uma ordem específica do deus e não quis desobedecer-lhe. Decide então, literalmente, compor.
Diz o filósofo:
“ E, por isso, minha primeira composição foi dedicada ao Deus em
cuja honra estava sendo realizado o sacrifício.” § 61 b
Aí teria musicado o hino a Apolo, ΕΙΣ ΑΠΟΛΛΩΝΑ, o deus da lira. O hino é na verdade um poema antiqüíssimo atribuído a Homero, dividido em duas partes contendo 546 versos ao todo, sendo os 178 iniciais dedicados a Apolo Délio narrando o seu nascimento e os demais dedicados a Apolo Pítio, celebrando a fundação do seu culto em Delfos, antiga Pitôn. Esses poemas eram recitados como prelúdio a solenidades religiosas ou em simples festivais religiosos e se prestavam a invocar o deus celebrado na ocasião.
E prossegue:
“Depois de haver prestado a minha homenagem ao Deus, julguei que
um poeta para ser verdadeiramente um poeta deve empregar mitos
e não raciocínios. Não me sentindo capaz de compor mitos, por
isso mesmo tomei por matéria de meus versos, na ordem em que me
vinham ocorrendo à lembrança, as fábulas ao meu alcance, as de
Esopo que eu sabia de cor.” § 61c
Aqui Sócrates vai mais além. Um poeta entrega-se aos assuntos da alma, e um filósofo, mais as do espírito. Isto significa que Sócrates diferenciou claramente a atividade racional do filósofo da atividade sensível do poeta e finalmente cedeu; na nossa linguagem ele tratou de atender ao chamado da sua psique, canalizando a sua energia literalmente para a música.
Como isso não devia ser muito fácil para ele, supriu a sua dificuldade no empreendimento poético, usando como guia algumas fábulas de Esopo que já eram famosas na Grécia em sua época. A música ativaria a sua função inferior, no caso a função sentimento.
Com relação ao tema da recorrência, presumimos que Sócrates tenha desenvolvido uma unilateralidade crônica na consciência.
Nós a imaginamos como uma identificação excessiva com o pensamento filosófico e que o seu psiquismo insistia, com sonhos repetitivos, em chamar a sua atenção para outros aspectos negligenciados da sua vida. Fica evidente que a sua psique ainda não havia perdido aquela capacidade de buscar o equilíbrio psicológico, o que costuma não funcionar bem em personalidades comprometidas.
O sonho, ao ser devidamente considerado, poderia exercer a sua função compensatória dentro da dinâmica de auto-regulação psíquica, tentando corrigir a unilateralidade atitudinal de Sócrates.
Isso pode tê-lo ajudado durante aqueles dias de prisão onde ocorria o seu encontro final consigo mesmo. A música pode ter trazido a vitalidade e a ventilação energética que a função inferior carreia para a personalidade total do indivíduo, integralizando-o.
Jung chegou a se manifestar a respeito do sonho de Sócrates narrado no Fédon numa carta-resposta a Hugo Charteris em 09.01.60, o qual compreendeu como manifestação do daimon do filósofo.
Escreve Jung:
“... Sócrates (...) deu ouvidos ao seu daimon e comprou
uma flauta (...), obedeceu humildemente à suave voz do
interior, entendendo-a literal e concretamente como uma
pessoa moderna. O daimon significa “música”, a arte do
sentimento, em oposição à sua constante preocupação com
o “ratio” da idade adolescente (...)”.
Adiante Jung lamenta o lugar do daimon que equipara a anima na vida moderna:
“Nós falamos, mas ele não diz nada; ele nem mesmo existe;
e, se existisse, não passaria de um erro patológico”.
Finaliza:
“Mas ao menos mostrou a única coisa valiosa: Para o
inferno com o mundo-ego! Escute a voz de seu daimon. Ele
tem a palavra agora, não você.”
A impressão que ficou da leitura do Fédon é que Sócrates morreu sereno, morreu em paz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APOLO, Hino a - <> acesso em: 25.01.07 às 12:53hs.
ESOPO – Fábulas – L&PM Editores, 2006, SP.
JUNG, C.G. – Cartas de C. G. Jung – vol. III, Ed. Vozes, 2003, RJ pág. 239, resposta
em 09/01/60 para Hugo Chateris.
__________ - Obras Completas de C.G.Jung – vol.XVI , Ed. Vozes, 1987, RJ.
PLATÃO – Diálogos – Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1972, SP.
(*) texto originalmente apresentado em forma de resumo para pôster no XV Congresso de Psicologia Analítica de 2007.
bragarnich@uol.com.br
Marcadores:
Jung. Psicologia Analítica. Socrátes. Sonho
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
A psique inquieta é o eixo do mundo!
“...o tempo não pára, não pára..."
Cazuza
"_Aí, meu Deus! Aí, meu Deus!
Vou chegar muito atrasado!”
[Coelho Branco in Alice no País das Maravilhas]
Lewis Carroll
Inquietação!
Vivemos um período histórico de extraordinária aceleração do tempo, uma era de grande sinergia, dinamismo e movimento। Isso se espraia por todos os âmbitos da assim chamada civilização ocidental sendo perceptível através das dimensões do objetivo e do subjetivo, do material e do virtual, do social e do individual, do local e do global, do literal e do simbólico।
Esta aceleração foi detectada e tem sido estudada em profundidade nas Ciências Sociais, na Filosofia e na Psicologia Analítica, onde não passou despercebida ao olhar atento de James Hillman, Raphael López-Pedraza, Amnéris Maroni e de muitos outros.
Esta aceleração cultural é vista então como um fenômeno coletivo, claramente identificável, irregular em sua manifestação, mas consistente e irreversível.
Há uma certa concordância por todos os estudiosos que este ciclo histórico teve o seu inicio mais ou menos em torno da segunda metade do século XX. Ela tem se tornado um fator cada vez mais visível e evidente em nosso cotidiano, em todas as classes e estamentos sociais, sendo cada vez mais percebida e sentida nas médias e grandes cidades e é esmagadoramente evidente em megalópoles como São Paulo, onde exerço o meu trabalho clínico.
O processo adiantado do capitalismo já ao nível do acelerado processo da globalização econômica, com a implementação tecnológica geradora da fantástica evolução das mídias, da telefonia e do computador pessoal e de conseqüente uso comunicacional e informacional, interferiram excepcionalmente na experiência subjetiva do espaço e do tempo, variáveis absolutamente essenciais ao funcionamento e orientação da consciência individual e coletiva. Atingimos o estado de pleno emprego do tempo: aproveitamento excepcional das possibilidades latentes, modelagem comportamental para atingir o máximo da perfomance pessoal, ampliação e assimilação progressiva do “espaço” pelo incremento de tarefas, ações e compromissos diários, quantas vezes sobrepostos, simultâneos e substituíveis entre si.
Vivemos enredados no furor agendi para um hiper-aproveitamento existencial, pois este é o espírito do nosso tempo. Experimentamos uma espécie de “esticamento” do tempo para “caber tudo” e ainda assim sentimos que ele está correndo rápido, sempre vertiginoso... Jovens não querem dormir para não perder tempo; e de certa forma, hoje, todos nós também não queremos perder tempo, não queremos perder nada!! Falamos então, de fato, de uma revolução civilizatória e não mais apenas de uma civilização em transição, como nos dizia Jung em sua época; tentamos compreendê-la, explicá-la, nomeá-la: chamamos isso de Pós Modernidade ou Modernidade Tardia ou outro nomina.
O individuo contemporâneo percebe que a sua vida está mudando em todos os aspectos: nas relações interpessoais, nas relações de trabalho, na família, nas modificações rápidas dos costumes, na alimentação, nas novas maneiras de se lidar com o amor e com o sexo (nas assim chamadas relações líquidas), no espaço próximo de convivência, na experiência local e, ao mesmo tempo, na percepção maior da política e da economia, nacional e internacional, hoje muito mais interligadas.
O indivíduo deste novo tempo aprofunda as conquistas da modernidade: confia na razão, crê na evolução da técnica, se apóia nos avanços da medicina, vive perplexo e atônito com a complexidade e as contradições das relações do mundo do trabalho e do dinheiro; quando consegue, ele trabalha e trabalha demasiado. Mas invariavelmente sucumbe ao lodaçal do consumismo e na hiper-informação. As velhas utopias, fontes de referência e de significado, se esfacelaram enquanto as antigas tradições religiosas, ainda que cambaleantes, prosseguem perseverantes, geralmente na contramão desse processo cultural. As contradições e conflitos parecem cada vez mais acirrados.
À aceleração do tempo corresponde a retração ou encolhimento do espaço pelo processo paradoxal da sua gradativa assimilação e conquista: a capacidade organizacional, grupal ou individual de exercer o poder através da velocidade e da mobilidade, tanto física como virtual, se torna, surpreendentemente, um critério muito importante de status e de ascensão social; poder circular, poder adquirir serviços e espaços, movimentar-se concretamente ou virtualmente é o “bem de consumo” mais desejável. O mundo tornou-se literalmente pequeno!!As classes dominantes mapeiam o espaço urbano, redefinindo incessantemente a geografia da opulência com medidas de proteção e segurança, defendendo-se da movimentação intensa de indivíduos e coletividades excluídas. Jung não conheceu este novo tempo; ele o intuiu e formulou claras indicações de que o ciclo do aéon cristão estava se esgotando ao fim da era astrológica de Peixes; que estávamos as voltas com uma civilização em transição. Não pôde, entretanto, vivê-la; ele foi o profeta de grandes transformações que viriam e lançou os fundamentos para que pudéssemos tentar entendê-las.
É neste contexto cultural, multifacetado e complexo, onde encontramos o nosso sujeito como paciente em nossos consultórios. E como o encontramos? O que ele nos traz? Quais são os seus conflitos, os seus desejos? Quais são as suas queixas e o seu sofrimento? O que o inconsciente está expressando? O que dizem os seus sonhos? Será que a alma contemporânea se compraz com esta sinergia, movimento e velocidade, ela mesma criadora dessa condição? Esse esforço adaptativo num mundo em constante movimento; a importância da competência, a inevitabilidade da competição, a busca da excelência, a confiança na racionalidade, não são acompanhados de muito medo, desamparo, angústia e uma inquietação ansiosa intensa? Como compatibilizar o tempo individual kairótico e o tempo cronológico cultural?Nosso mundo é marcado em deslocamentos intensos de valores: da fé para o pensamento racional, do espiritual para a materialidade e consumo maníaco, da análise profunda para as psicoterapias objetivas ou seitas religiosas não raramente oportunistas; é o mundo ruidoso das soluções lógicas, competentes e principalmente rápidas.
O nosso paciente é o espelho perturbado de um mundo globalizado aparentemente conturbado, onde tudo parece possível, tangível, conquistável, muito embora esta ativação psíquica tenha mais é o condão de iludir e agitar a alma de cada um de nós pela falácia da opulência adquirível. A perturbação na alma do mundo parece corresponder à perturbação na anima que se expressa na interioridade individual; sua psique em geral está convulsionada pelo barulho dessa materialidade desmedida, dessa frustração constante; não há tempo para o silêncio, para a reflexão, para uma vivência interna profunda e significativa. A alma precisa de tempo e espaço com qualidade para ser cultivada, ainda que de novas e criativas maneiras; necessita sacrifício que ninguém parece estar disposto a oferecer mais; vive-se assim à deriva psicológica num mar de agitação e ansiedade. Será possível imaginarmos o labor alquímico feito em retorta aquecida em um forno de microondas?Nosso tempo certamente pode ser expresso simbolicamente através da imagem alquímica de uma ampla Solutio cultural, que em seu aspecto mais negativo, tende a incrementar a inconsciência, a liquidificar as relações e a diluir a alma na materialidade. Uma imagem clássica de Solutio é a travessia hebraica do Mar Vermelho, que pode nos servir como metáfora-guia dessa experiência coletiva viva.
Sobre ela, Jung menciona no Mysterium Coniunctionis o comentário gnóstico perático: “ O Mar Vermelho engoliu os egípcios, mas egípcios são todos os ignorantes...O Mar Vermelho é a água da morte para os inconscientes, mas para os que são conscientes, é a água batismal do renascimento e transcendência”.
Esta amplificação nos aponta diretamente para a idéia central de que não podemos perder de vista, nestes tempos, a importância fundamental daquele que é o valor humano mais precioso, qual seja, a liberdade, sob pena de permanecermos na escravidão dos Faraós ou afundarmos no inconsciente, sendo tragados pela materialidade e velocidade que dominam o mundo contemporâneo. Podemos olhar esta voracidade de tempo como uma manifestação do self, um pedido de socorro coletivo, da mesma forma que a neurose é um pedido de socorro da alma para o individuo, mas que pode não estar sendo ouvido ou compreendido em sua profundidade. As chances de destruição humana e do planeta talvez sejam a expressão desse pedido para que o homem pudesse parar e olhar verdadeiramente para si mesmo e re-descobrir a sua vocação no cosmos.Caminha-se assim apenas com a luz da esperança neste processo encerrado no mais absoluto e indecifrável mistério, sem perder a consciência da nossa natureza e do nosso destino, com a crença segundo a qual cada pequena transformação que ajudamos a promover com cada um dos nossos pacientes, contribui com a sua parcela para a alma do mundo.
Ubatuba (SP), 2005
Referências Bibliográficas
BAUMANN, Z. AMOR LÍQUIDO, Jorge Zahar Ed., RJ, 2003.BAUMANN, Z. Globalização e as conseqüências humanas,
EDINGER, E.F. The Mysterium Lectures, Canada, 1995, Inner City Books
GIEGERICH, W. Matanças, 1992, disponível em: http://www.rubedo.psc.br/
HILLMAN, J.; VENTURA, M. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior 1992, Summus EditorialJUNG, C.G. Obras Completas, vol.10, RJ, 1986, Ed.Vozes
LOPES-PEDRAZA, R. Ansiedade Cultural , Ed. Paulus, 2004
MORONI, A. Jung na era das catástrofes in Viver Mente&Corpo –Coleção Memória da Psicanálise, Duetto Editorial, ed. 2, 2005, págs. 30 e segs.
Cazuza
"_Aí, meu Deus! Aí, meu Deus!
Vou chegar muito atrasado!”
[Coelho Branco in Alice no País das Maravilhas]
Lewis Carroll
Inquietação!
Vivemos um período histórico de extraordinária aceleração do tempo, uma era de grande sinergia, dinamismo e movimento। Isso se espraia por todos os âmbitos da assim chamada civilização ocidental sendo perceptível através das dimensões do objetivo e do subjetivo, do material e do virtual, do social e do individual, do local e do global, do literal e do simbólico।
Esta aceleração foi detectada e tem sido estudada em profundidade nas Ciências Sociais, na Filosofia e na Psicologia Analítica, onde não passou despercebida ao olhar atento de James Hillman, Raphael López-Pedraza, Amnéris Maroni e de muitos outros.
Esta aceleração cultural é vista então como um fenômeno coletivo, claramente identificável, irregular em sua manifestação, mas consistente e irreversível.
Há uma certa concordância por todos os estudiosos que este ciclo histórico teve o seu inicio mais ou menos em torno da segunda metade do século XX. Ela tem se tornado um fator cada vez mais visível e evidente em nosso cotidiano, em todas as classes e estamentos sociais, sendo cada vez mais percebida e sentida nas médias e grandes cidades e é esmagadoramente evidente em megalópoles como São Paulo, onde exerço o meu trabalho clínico.
O processo adiantado do capitalismo já ao nível do acelerado processo da globalização econômica, com a implementação tecnológica geradora da fantástica evolução das mídias, da telefonia e do computador pessoal e de conseqüente uso comunicacional e informacional, interferiram excepcionalmente na experiência subjetiva do espaço e do tempo, variáveis absolutamente essenciais ao funcionamento e orientação da consciência individual e coletiva. Atingimos o estado de pleno emprego do tempo: aproveitamento excepcional das possibilidades latentes, modelagem comportamental para atingir o máximo da perfomance pessoal, ampliação e assimilação progressiva do “espaço” pelo incremento de tarefas, ações e compromissos diários, quantas vezes sobrepostos, simultâneos e substituíveis entre si.
Vivemos enredados no furor agendi para um hiper-aproveitamento existencial, pois este é o espírito do nosso tempo. Experimentamos uma espécie de “esticamento” do tempo para “caber tudo” e ainda assim sentimos que ele está correndo rápido, sempre vertiginoso... Jovens não querem dormir para não perder tempo; e de certa forma, hoje, todos nós também não queremos perder tempo, não queremos perder nada!! Falamos então, de fato, de uma revolução civilizatória e não mais apenas de uma civilização em transição, como nos dizia Jung em sua época; tentamos compreendê-la, explicá-la, nomeá-la: chamamos isso de Pós Modernidade ou Modernidade Tardia ou outro nomina.
O individuo contemporâneo percebe que a sua vida está mudando em todos os aspectos: nas relações interpessoais, nas relações de trabalho, na família, nas modificações rápidas dos costumes, na alimentação, nas novas maneiras de se lidar com o amor e com o sexo (nas assim chamadas relações líquidas), no espaço próximo de convivência, na experiência local e, ao mesmo tempo, na percepção maior da política e da economia, nacional e internacional, hoje muito mais interligadas.
O indivíduo deste novo tempo aprofunda as conquistas da modernidade: confia na razão, crê na evolução da técnica, se apóia nos avanços da medicina, vive perplexo e atônito com a complexidade e as contradições das relações do mundo do trabalho e do dinheiro; quando consegue, ele trabalha e trabalha demasiado. Mas invariavelmente sucumbe ao lodaçal do consumismo e na hiper-informação. As velhas utopias, fontes de referência e de significado, se esfacelaram enquanto as antigas tradições religiosas, ainda que cambaleantes, prosseguem perseverantes, geralmente na contramão desse processo cultural. As contradições e conflitos parecem cada vez mais acirrados.
À aceleração do tempo corresponde a retração ou encolhimento do espaço pelo processo paradoxal da sua gradativa assimilação e conquista: a capacidade organizacional, grupal ou individual de exercer o poder através da velocidade e da mobilidade, tanto física como virtual, se torna, surpreendentemente, um critério muito importante de status e de ascensão social; poder circular, poder adquirir serviços e espaços, movimentar-se concretamente ou virtualmente é o “bem de consumo” mais desejável. O mundo tornou-se literalmente pequeno!!As classes dominantes mapeiam o espaço urbano, redefinindo incessantemente a geografia da opulência com medidas de proteção e segurança, defendendo-se da movimentação intensa de indivíduos e coletividades excluídas. Jung não conheceu este novo tempo; ele o intuiu e formulou claras indicações de que o ciclo do aéon cristão estava se esgotando ao fim da era astrológica de Peixes; que estávamos as voltas com uma civilização em transição. Não pôde, entretanto, vivê-la; ele foi o profeta de grandes transformações que viriam e lançou os fundamentos para que pudéssemos tentar entendê-las.
É neste contexto cultural, multifacetado e complexo, onde encontramos o nosso sujeito como paciente em nossos consultórios. E como o encontramos? O que ele nos traz? Quais são os seus conflitos, os seus desejos? Quais são as suas queixas e o seu sofrimento? O que o inconsciente está expressando? O que dizem os seus sonhos? Será que a alma contemporânea se compraz com esta sinergia, movimento e velocidade, ela mesma criadora dessa condição? Esse esforço adaptativo num mundo em constante movimento; a importância da competência, a inevitabilidade da competição, a busca da excelência, a confiança na racionalidade, não são acompanhados de muito medo, desamparo, angústia e uma inquietação ansiosa intensa? Como compatibilizar o tempo individual kairótico e o tempo cronológico cultural?Nosso mundo é marcado em deslocamentos intensos de valores: da fé para o pensamento racional, do espiritual para a materialidade e consumo maníaco, da análise profunda para as psicoterapias objetivas ou seitas religiosas não raramente oportunistas; é o mundo ruidoso das soluções lógicas, competentes e principalmente rápidas.
O nosso paciente é o espelho perturbado de um mundo globalizado aparentemente conturbado, onde tudo parece possível, tangível, conquistável, muito embora esta ativação psíquica tenha mais é o condão de iludir e agitar a alma de cada um de nós pela falácia da opulência adquirível. A perturbação na alma do mundo parece corresponder à perturbação na anima que se expressa na interioridade individual; sua psique em geral está convulsionada pelo barulho dessa materialidade desmedida, dessa frustração constante; não há tempo para o silêncio, para a reflexão, para uma vivência interna profunda e significativa. A alma precisa de tempo e espaço com qualidade para ser cultivada, ainda que de novas e criativas maneiras; necessita sacrifício que ninguém parece estar disposto a oferecer mais; vive-se assim à deriva psicológica num mar de agitação e ansiedade. Será possível imaginarmos o labor alquímico feito em retorta aquecida em um forno de microondas?Nosso tempo certamente pode ser expresso simbolicamente através da imagem alquímica de uma ampla Solutio cultural, que em seu aspecto mais negativo, tende a incrementar a inconsciência, a liquidificar as relações e a diluir a alma na materialidade. Uma imagem clássica de Solutio é a travessia hebraica do Mar Vermelho, que pode nos servir como metáfora-guia dessa experiência coletiva viva.
Sobre ela, Jung menciona no Mysterium Coniunctionis o comentário gnóstico perático: “ O Mar Vermelho engoliu os egípcios, mas egípcios são todos os ignorantes...O Mar Vermelho é a água da morte para os inconscientes, mas para os que são conscientes, é a água batismal do renascimento e transcendência”.
Esta amplificação nos aponta diretamente para a idéia central de que não podemos perder de vista, nestes tempos, a importância fundamental daquele que é o valor humano mais precioso, qual seja, a liberdade, sob pena de permanecermos na escravidão dos Faraós ou afundarmos no inconsciente, sendo tragados pela materialidade e velocidade que dominam o mundo contemporâneo. Podemos olhar esta voracidade de tempo como uma manifestação do self, um pedido de socorro coletivo, da mesma forma que a neurose é um pedido de socorro da alma para o individuo, mas que pode não estar sendo ouvido ou compreendido em sua profundidade. As chances de destruição humana e do planeta talvez sejam a expressão desse pedido para que o homem pudesse parar e olhar verdadeiramente para si mesmo e re-descobrir a sua vocação no cosmos.Caminha-se assim apenas com a luz da esperança neste processo encerrado no mais absoluto e indecifrável mistério, sem perder a consciência da nossa natureza e do nosso destino, com a crença segundo a qual cada pequena transformação que ajudamos a promover com cada um dos nossos pacientes, contribui com a sua parcela para a alma do mundo.
Ubatuba (SP), 2005
Referências Bibliográficas
BAUMANN, Z. AMOR LÍQUIDO, Jorge Zahar Ed., RJ, 2003.BAUMANN, Z. Globalização e as conseqüências humanas,
EDINGER, E.F. The Mysterium Lectures, Canada, 1995, Inner City Books
GIEGERICH, W. Matanças, 1992, disponível em: http://www.rubedo.psc.br/
HILLMAN, J.; VENTURA, M. Cem anos de psicoterapia e o mundo está cada vez pior 1992, Summus EditorialJUNG, C.G. Obras Completas, vol.10, RJ, 1986, Ed.Vozes
LOPES-PEDRAZA, R. Ansiedade Cultural , Ed. Paulus, 2004
MORONI, A. Jung na era das catástrofes in Viver Mente&Corpo –Coleção Memória da Psicanálise, Duetto Editorial, ed. 2, 2005, págs. 30 e segs.
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Psicologia Analítica. Psique. Jung
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Exercício sobre construção de personagem
Jailsson do Nascimento.
Adulto, idade indeterminada.
Nordestino.
Morador de rua.
Catador de papel.
1º momento: tristeza
Jailsson está sentado no chão com as costas apoiadas na parede, curvado. Puxa desajeitadamente a foto 3 x 4 amassada do bolsinho da camisa amarrotada. Fica olhando detidamente para ela. Com a manga da outra mão limpa os ciscos grudados. Olha profundamente a fotografia. Suspira. Seus olhos se congestionam e vai esboçando cara de choro. Sente um aperto no meio do peito. As pálpebras tremem, as lágrimas escorrem pelos sulcos da face e o choro vai aumentando até se tornar convulso. Com os olhos encharcados, a sua visão fica embaçada e perde o foco. Nem precisa; não importa: Jailsson está mergulhado na imagem de Gilsimara que guarda dentro de si.
2º momento: delírio
Jailsson está com o olhar parado, vazio, distante Parece que pensa. Vai ficando com cara de desconfiado. Escuta uma voz. Apura o ouvido para escutar melhor. É de homem, tem certeza. Não sabe de onde ela vem. Fica procurando por todos os lados. Não acha nada. Desiste. A voz, no entanto, fala em seu ouvido. Incomodado olha para cima, andando em círculos. Pergunta:
- O que é que você quer?
Pausa.
- Não tô entendendo.
Pausa
- Quê? Hã?
Presta a atenção em alguma pergunta que lhe é formulada. Fica bravo e responde:
– Você está pensando o quê, cara? Vá se foder! Não estou mais com ela. Ela foi embora, me deixou...
A discussão prossegue num diálogo patético.
Mais adiante Jailsson pede silêncio:
- Psiu. – sinaliza com o indicador
- Espera aí um pouquinho; está passando... está indo...está vendo aquele avião que está passando? Psiu! Fica quieto, pô!
Após alguns segundos:
- Pronto. Você viu? Não te falei? Ela está lá, está indo embora, para lá longe. Não volta. Vê se não me enche mais o saco!
A conversa acabou e Jailsson vai se acalmando. Senta-se no chão lentamente com a cabeça baixa, silencioso. Os seus cotovelos apoiam-se nos joelhos dobrados e os braços caem pendidos para frente. Fumaça se aproxima e se acomoda encolhendo a cauda. Coloca o seu focinho sobre as patas dianteiras e fecha os olhos.
3º momento: sofrimento físico
Durmo encolhido com um cobertor que me cobre a cabeça. Zzzzzzzzzz
- Hum, hã... Que é que está acontecendo? Que dor desgraçada!
Jailsson está acordando, está confuso, sente muita dor.
- Está doendo a boca. Eu acho que estou todo inchado – vai apalpando o lado esquerdo de sua mandíbula.
Sente que a barba está rala e áspera, mas não se importa: a dor é infernal, está insuportável:
- Cacete! Que dor filha-da-puta! – pragueja.
Anda de um lado para o outro com a mão apertando o rosto, amaldiçoando:
- Que merda! Doem os ossos!
Não agüenta mais; chuta uma pedra com raiva.
A dor continua lancinante. Bate a cabeça na parede. Morde a mão em desespero. A mordida dói por pouco tempo, mas vai se desvanecendo e a dor na boca volta com todo ímpeto.
- Pelo amor de Deus! Senhor, me ajude!– implora e cai de joelhos.
4º momento: nostalgia
Sentado na calçada com o costado na roda da carrocinha, Jailsson ouve o ruído do Fumaça lambendo um velho osso. Enquanto isso gira em sua mão um fino talo verde de uma plantinha arrancada do ajardinado mal cuidado da praça. Seus olhos estão lânguidos e parecem menores plasmados do prazer de lembranças felizes de sua infância em Caruaru.
Jailsson não está mais ali; é o moleque que corre pelo quintal atrás das galinhas que fogem em disparada. Mais no canto perto do cajueiro, a malhada muge incomodada com a bagunça. E o garoto ri e gargalha até ficar sem fôlego
– Jailsson! Vem para a mesa, menino! – soa a voz de dona Maria.
– Não se esqueça de lavar as mãos – recomenda.
Jailsson vem maviosamente, devagarzinho, sorvendo o cheiro forte do feijão com carne seca que a mãe preparara. A tapioca está deliciosa. A boca se enche d’água. Dá para sentir o gostinho. Jailsson estala a língua. Às vezes o seu Jerônimo não almoçava junto com a família na cozinha devido aos negócios na cidade. Na roça o menino carpia e plantava. Sempre perto do pai. Ah! Vida boa! Suspira profundamente e isso o traz de volta ao chão. Faz cara feia.
Retorna para Caruaru. Vê o aro que ia tocando com um pau pela estrada, o jogo da finca com a molecada na terra mole depois da chuva. Brincar, jogar bola de capotão, fazer um gol. Sentir o prazer de viver.
Era tudo bom, tudo feliz. - reflete Jailsson com saudades. Eta tempo bom! Tempo que não volta mais. A gente vem para a cidade grande iludido, imaginoso. Acha que vai voltar um dia importante e com dinheiro no bolso. Qual nada! Aqui não é assim não: é vida dura, vida madrasta.
Adulto, idade indeterminada.
Nordestino.
Morador de rua.
Catador de papel.
1º momento: tristeza
Jailsson está sentado no chão com as costas apoiadas na parede, curvado. Puxa desajeitadamente a foto 3 x 4 amassada do bolsinho da camisa amarrotada. Fica olhando detidamente para ela. Com a manga da outra mão limpa os ciscos grudados. Olha profundamente a fotografia. Suspira. Seus olhos se congestionam e vai esboçando cara de choro. Sente um aperto no meio do peito. As pálpebras tremem, as lágrimas escorrem pelos sulcos da face e o choro vai aumentando até se tornar convulso. Com os olhos encharcados, a sua visão fica embaçada e perde o foco. Nem precisa; não importa: Jailsson está mergulhado na imagem de Gilsimara que guarda dentro de si.
2º momento: delírio
Jailsson está com o olhar parado, vazio, distante Parece que pensa. Vai ficando com cara de desconfiado. Escuta uma voz. Apura o ouvido para escutar melhor. É de homem, tem certeza. Não sabe de onde ela vem. Fica procurando por todos os lados. Não acha nada. Desiste. A voz, no entanto, fala em seu ouvido. Incomodado olha para cima, andando em círculos. Pergunta:
- O que é que você quer?
Pausa.
- Não tô entendendo.
Pausa
- Quê? Hã?
Presta a atenção em alguma pergunta que lhe é formulada. Fica bravo e responde:
– Você está pensando o quê, cara? Vá se foder! Não estou mais com ela. Ela foi embora, me deixou...
A discussão prossegue num diálogo patético.
Mais adiante Jailsson pede silêncio:
- Psiu. – sinaliza com o indicador
- Espera aí um pouquinho; está passando... está indo...está vendo aquele avião que está passando? Psiu! Fica quieto, pô!
Após alguns segundos:
- Pronto. Você viu? Não te falei? Ela está lá, está indo embora, para lá longe. Não volta. Vê se não me enche mais o saco!
A conversa acabou e Jailsson vai se acalmando. Senta-se no chão lentamente com a cabeça baixa, silencioso. Os seus cotovelos apoiam-se nos joelhos dobrados e os braços caem pendidos para frente. Fumaça se aproxima e se acomoda encolhendo a cauda. Coloca o seu focinho sobre as patas dianteiras e fecha os olhos.
3º momento: sofrimento físico
Durmo encolhido com um cobertor que me cobre a cabeça. Zzzzzzzzzz
- Hum, hã... Que é que está acontecendo? Que dor desgraçada!
Jailsson está acordando, está confuso, sente muita dor.
- Está doendo a boca. Eu acho que estou todo inchado – vai apalpando o lado esquerdo de sua mandíbula.
Sente que a barba está rala e áspera, mas não se importa: a dor é infernal, está insuportável:
- Cacete! Que dor filha-da-puta! – pragueja.
Anda de um lado para o outro com a mão apertando o rosto, amaldiçoando:
- Que merda! Doem os ossos!
Não agüenta mais; chuta uma pedra com raiva.
A dor continua lancinante. Bate a cabeça na parede. Morde a mão em desespero. A mordida dói por pouco tempo, mas vai se desvanecendo e a dor na boca volta com todo ímpeto.
- Pelo amor de Deus! Senhor, me ajude!– implora e cai de joelhos.
4º momento: nostalgia
Sentado na calçada com o costado na roda da carrocinha, Jailsson ouve o ruído do Fumaça lambendo um velho osso. Enquanto isso gira em sua mão um fino talo verde de uma plantinha arrancada do ajardinado mal cuidado da praça. Seus olhos estão lânguidos e parecem menores plasmados do prazer de lembranças felizes de sua infância em Caruaru.
Jailsson não está mais ali; é o moleque que corre pelo quintal atrás das galinhas que fogem em disparada. Mais no canto perto do cajueiro, a malhada muge incomodada com a bagunça. E o garoto ri e gargalha até ficar sem fôlego
– Jailsson! Vem para a mesa, menino! – soa a voz de dona Maria.
– Não se esqueça de lavar as mãos – recomenda.
Jailsson vem maviosamente, devagarzinho, sorvendo o cheiro forte do feijão com carne seca que a mãe preparara. A tapioca está deliciosa. A boca se enche d’água. Dá para sentir o gostinho. Jailsson estala a língua. Às vezes o seu Jerônimo não almoçava junto com a família na cozinha devido aos negócios na cidade. Na roça o menino carpia e plantava. Sempre perto do pai. Ah! Vida boa! Suspira profundamente e isso o traz de volta ao chão. Faz cara feia.
Retorna para Caruaru. Vê o aro que ia tocando com um pau pela estrada, o jogo da finca com a molecada na terra mole depois da chuva. Brincar, jogar bola de capotão, fazer um gol. Sentir o prazer de viver.
Era tudo bom, tudo feliz. - reflete Jailsson com saudades. Eta tempo bom! Tempo que não volta mais. A gente vem para a cidade grande iludido, imaginoso. Acha que vai voltar um dia importante e com dinheiro no bolso. Qual nada! Aqui não é assim não: é vida dura, vida madrasta.
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Costela de Anão
Sou uma costela retorcida e deformada. Nada existe neste momento e neste mundo; o que existe é uma costela que dói. É a dor de uma costela. Eu sou apenas o apêndice indigno de uma costela dolorida, uma parte que incomoda, que vira o todo, que me envergonha. Uma feia deformidade é o que sou. Um gauche completo.
Por mais que tente corrigi-la fazendo mil exercícios, ela se move mas não volta ao normal; ela é rija, é osso. Será que alguma vez ela foi normal?
Penso e imagino tantas maneiras e maquinações para curá-la, reeducá-la, fazê-la voltar a sua posição que presumo seja a correta. Nunca consigo por mais que tente. Ela fica soldada, assim torta e denuncia a minha tortice completa. Tortice e tortura.
A costela me tortura. Eu me torturo. Ela me lembra a minha pequenez. Pequenez de anão. Não é a costela de Adão, o arquétipo humano, a base positiva do homem. É costela de anão.
É a marca da deformidade, da inaceitação de mim mesmo, a marca do complexo.
Ela mostra que há coisas em mim que não têm redenção, não têm cura, não têm jeito.
São como as pedras que não se transformam, que permanecem imutáveis por tanto tempo que parecem eternas.
São fixas e rígidas como partes mortas que chegaram antes da própria morte.
Da minha morte
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