terça-feira, 11 de janeiro de 2011

DIGRESSÕES ACERCA DA COMPREENSÃO

Diz-se que a Psicologia Analítica é uma psicologia de compreensão, diferente de outras psicologias como a Psicanálise e das ciências tradicionais que são abordagens baseadas na explicação. Quem estabeleceu esta diferença foi o filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1822-1911), o grande teórico na luta pela libertação metodológica das ciências humanas do modelo de ciência praticada na virada dos seculos XIX e XX. Para isso, Dilthey desenvolveu argumentação baseada na diferenças de fundamentos epistemológicos do conhecimento científico tradicional: causalismo, típico das ciências fisicas e biológicas e o finalismo ou teleologismo, próprio das humanidades. Essas últimas, mais do que causas, buscam o significado dos fenomenos psicológicos, sociais e culturais. A Psicologia Analítica, fundamentada no mundo arquetípico e simbólico, segue predominantemente o modelo da compreensão.

Como se daria a busca do significado?

Um dos caminhos é a pesquisa etimológica. Seguindo os passos de R.A. Lockhart observamos o que se encerra no interior de uma palavra, 'o significado e definição usual é muito frequentemente só a casca de uma palavra; nós as usamos mas não conhecemos a sua alma. Somos todos abusadores verbais. Aquilo que possa ajudar a nos libertar da prisão do significado atual, da literalidade e velocidade do momento, nos ajudará a libertar a psique da sua casca aprisionante'.

Nas escavações arqueológicas das palavras encontramos em suas raizes significados originais e ocultos, descobrimos o seu 'inconsciente'.

Vejamos o vocábulo explicação; tem origem latina sendo formado pelo prefixo ex (com idéia de saída, de conclusão, acabamento) e o verbo plicare (dobrar, enroscar) gerando explicatio. Nos dicionários encontramos as acepções:


1. ação de desdobrar, desenrolar, estender, desenfardar.

2. esclarecimento e interpretação.

3. ato de expor pormenorizadamente, narrando.

4. desembaraçar, livrar, acabar, terminar, concluir.


Aqui podemos observar que a noção de que as causas elementares já se encontram presentes no fenomeno, enroladas, dobradas , enfardadas ou embaraçadas e assim sendo, necessitam serem abertas, expostas. Desta maneira, as causas são identificaveis e definidas como geradoras e responsáveis pela ocorrência do evento, ou seja, seus efeitos ficam completamente esclarecidos pelo encadeamento causal. A explicação funciona muito para esclarecer e determinar com competência as causas e os efeitos obtidos. Este é o meio preferencial adotado pelo método científico clássico.

O conhecimento obtido nas ciências da compreensão não é assegurado pelos nexos causais uma vez que não são suficientes para elucidar o fenomeno humano; neste ambito, há interferencia de um emaranhado de possibilidades misteriosas que necessitam mais do que causas, necessitam de significados para que tudo se esclareça. Responde mais a perguntas do tipo 'para quê' do que 'porquê'.

Continuando com a arqueologia etimológica, encontramos as raízes de compreensão no mundo latino onde é formada pelo prefixo com mais o verbo prehender ou praehendere, formando comprehendere ou compraendere que significa:

1. agarrar com as mãos, prender, tomar, apoderar-se, pegar.

2. apanhar em flagrante, surpreender.

3. tomar pela raiz, tomar pela base.

4. conceber um filho.

A compreensão envolve assim um agarrar psiquico, ora lento, juntando, fazendo conexões, ora surpreendendo, apoderando-se de qualidades psíquicas como um todo, atando, sintetizando, aglutinando, chegando às raízes, buscando o insight.

No contexto analítico, onde a atmosfera é contagiante, mesclada, misturada, envolvente, constela baixa discriminação. Fatores emocionais e irracionais que nos fazem refletir sobre a dificuldade na busca da compreensão do psíquico/social/cultural, onde o arquétipo atinge. O processo transferencial é outro fator interveniente no processo analítico. Jung nos fala da compreensão dentro do movimento de empatia profunda, captação da subjetividade do outro, busca dos fatores inconscientes no paciente e através da percepção transferencial em nós mesmos, em nosso corpo e nossa fantasia.

Compreensão exige muito aprofundamento em busca do desvendamento do inconsciente que possa trazer benefício para a consciência humana. Na Psicologia Analítica a predominância absoluta é da compreensão, donde pululam analogias, mas não nos esqueçamos que Jung utilizou extensivamente a explicação em suas argumentações empiricas ou teóricas, muitas delas de carater persuasivo.

(derivado de apresentação em sessão de temas livres em congresso da AJB)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Um adágio em Küsnacht

(revisto para edição no blog)

Há um conhecido provérbio coligido da Antigüidade Clássica por Gerhard Gerhards, um clérigo agostiniano holandês, que adotou o nome latinizado de Desiderius Erasmus (28.10.1466 – 12.07.1536), conhecido como Erasmo de Rotterdam, um dos mais notáveis e influentes humanistas da Renascença. Erasmo teve papel importante na revitalização do Cristianismo bem como na revalorização dos textos gregos e latinos clássicos, como nos aforismos dentre os quais um que assim se enunciava: vocatus atque non vocatus deus aderit, que pode ser traduzido como Evocado ou não, Deus está presente ou Evocado ou não, Deus estará presente.

Este pensamento, séculos depois, viria a ser extraído por C.G. Jung do Collectanea Adagiorum, uma compilação de provérbios e aforismos de autores antigos gregos e latinos, obra de juventude de Erasmo publicada pela primeira vez exatamente em 1500.

Ele devia encerrar grande importância e significação para Jung já que foi esculpido, em sua forma latina, no frontispício de sua casa em Küsnacht, sobre a porta entrada. Além disso, também viria ser eternizado em pedra em uma das três inscrições na lápide de seu túmulo no cemitério protestante de Zurique, onde as duas primeiras inscrições se referem a 1º epístola de S. Paulo aos Coríntios (1 COR 15:47), a primeira, verticalmente à direita, Primus homo de terra terrenus (O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre); a segunda, no lado oposto Secundus homo de caelo caelestis (O segundo homem vem do céu, celeste). O provérbio sobre a presença de Deus está disposto em duas partes, na faixa horizontal superior e inferior da pedra.

Jung sempre teve uma relação especial com pedra e inscrições; ele mesmo cunhou na casa e refugio espiritual em Bollingen, à beira do lago de Zurique, várias idéias de Heráclito, Homero e outros em latim ou grego. Em uma das três faces do cubo de arenito azulado onde estão estas inscrições, há uma citação alquímica sobre o significado da pedra que Jung assim traduziu: “Sou uma orfã, sozinha; entretanto, podem me encontrar por toda a parte. Sou uma, mas oposta a mim mesma. Sou ao mesmo tempo adolescente e velha. Não conheci pai nem mãe, pois devem me ter retirado das profundezas como um peixe ou porque caí do céu, como uma pedra branca. Vagueio pelas florestas e montanhas, mas estou escondida no mais íntimo do homem. Sou mortal para cada um e no entanto a sucessão dos tempos não me atinge”.

Quanto ao adágio de Küsnacht, ele tem sua origem em Delfos, na região central da Grécia, mais exatamente no templo e oráculo dedicados a Apolo, o mais famoso de todos os oráculos gregos. Localizado ao sul do Monte Parnasso, era tido como um ômfalo, dedicado ao deus da luz, poesia, música e profecias, sendo utilizado até 390 da nossa era com finalidade oracular. Para lá acorria gente de toda a Grécia para saber do futuro para questões bélicas, políticas, amorosas, da vida privada, instalação de colônias, casamentos, etc.; uma virgem escolhida como a sacerdotisa Pítia, ficava sentada num trípode, um engenho de três pés; entrava em transe por aspiração de vapores e ingestão de folhas especialmente preparadas para o rito. Sua única qualificação era ouvir a questão trazida pelo sacerdote auxiliar, falar e repetir o que o deus lhe ditava. Assim, o espírito do deus se revelava e a resposta era declamada em versos para que os sacerdotes as transmitisse ao consulente. O contexto no qual o provérbio de Küsnacht teria sido enunciado por Apolo é um tanto vago (parece ter feito parte da resposta a uma questão militar), tendo sobrevivido, no entanto, até nossos dias já com uma coloração exclusivamente monoteísta.

Pois bem, no lado esquerdo do corredor que dá acesso à minha sala de trabalho, há uma foto emoldurada com esse ditado em inglês Bidden or not bidden God is present, obtida de inscrição também em pedra trazida de Londres, mais exatamente da Abadia de Westminster. A foto, por falta de luminosidade adequada, por pura sorte, ficou escura, brumosa nos cantos e mais clara no centro, trazendo um ar transcendental e espiritual. O que isto significa para mim?

Tal qual um mezuzah hebraico, que se instala no batente direito da porta da casa de um judeu e que contém uma oração abençoando e protegendo aquele lar, a mensagem recolhida por Erasmo teria para mim a mesma função protetora do mezuzah.

E para Jung, por que fez esculpir a máxima na porta de sua casa em Küsnacht? Seria o locus do desvendamento dos mistérios do mundo do Inconsciente que naquele recinto se revelariam? Poderíamos pensar neste provérbio milenar como uma expressão simbólica que guarda significados ocultos e assim tentar capturá-los em seus aspectos vinculados ao trabalho clínico, uma vez que a ele por Jung foi associado através da

inscrição cunhada.

Um significado que se pode extrair do provérbio é que independente da nossa consciência profissional, extremamente matizada pelo cientificismo e racionalismo que nos configurou, pois somos frutos do espírito de nossa época, há algo muito além do ego, que ali está presente involuntariamente. Esse algo é tudo aquilo que não sabemos ou conhecemos, que nos escapa, que não enxergamos, que não percebemos, literalmente tudo aquilo que nos é inconsciente. Portanto, ele pode ser entendido como enunciando a existência do inconsciente.

Outro significado se refere à energética; no setting terapêutico operam forças poderosas que emanam do fundo psíquico desconhecido, além daquelas que conscientemente acionamos na nossa atividade clínica, com o nosso método e com os nossos procedimentos técnicos. O que sabemos é que elas se expressam em imagens impessoais ou coletivas fortemente carregadas de afeto dos núcleos dos complexos, ou seja, dos chamados arquétipos, mui propriamente bem representados nas mitologias por deuses

Há mais uma acepção do provérbio que sugere a existência de uma regência superior em nosso labor analítico, que nos estipula uma medida para as nossas dimensões, nos restringindo aos limites de modéstia e humildade; ainda que possamos obter sucesso em nossos esforços junto aos nossos pacientes, estes se dão sempre em estreita observância a um fator maior, abrangente, poderoso, algo acima de nós próprios. Isso também pode ser expresso equivalentemente por outro provérbio do mundo médico: “Eu trato e Deus cura”, verdadeiro antídoto que nos afasta daquilo que foi descrito na mitologia grega como hybris, qual seja, a danosa identificação com o poder de cura, que poderia nos levar ao estado de inflação arrogante e vaidosa, como se fossemos semelhantes a Deus ou aos deuses.

E, finalmente, me ocorre um último significado que se refere o ditado délfico em sua acepção mais literal, qual seja, a presença de um determinante incognoscível divino, onipresente e onisciente, o qual nós chamamos de arquétipo do Self. Colocado à entrada do local onde trabalhamos, nós o evocamos e o denominamos “Self terapêutico”, por atribuir-lhe a função maior de cura e desenvolvimento psicológico.

Neste contexto, significa também que é exigido a personalidade integral do terapeuta como ferramenta a serviço desse Self terapêutico. Todos sabemos como é difícil arte de trabalharmos num campo psicológico árduo, parcialmente consciente e parcialmente inconsciente, funcionando dentro do fio tênue entre o que é consagrado pela ciência formal e aquilo que não é, quando nos movemos na penumbra, na escuta pari passu com as narrativas, com os silêncios de nossos pacientes, na intuição e tendo as vezes tão somente a fé de que Jung nos fala em A Prática da Psicoterapia, onde nos diz que a fé do terapeuta em seu trabalho é fundamental para o bom andamento do trabalho clínico. A compreensão desta sujeição ao Self pode ser a única crença que nos resta nestes momentos de vida profissional, quando tudo parece árido e sem solução. Aí o inconsciente produz os seus símbolos que emergem para o espaço terapêutico e novamente se abre um caminho e a solução para um conflito aparentemente intransponível. É graças a essa presença arquetípica que chamamos Self, e que poderia com certeza ser mais um dos nomes de Deus, que o processo caminha.

Tornarmo-nos conscientes desta presença e o evocarmos voluntariamente no setting terapêutico é dissolvermos as barreiras históricas erigidas entre a clínica e a espiritualidade e tê-lo como nosso aliado poderoso.

Rubens Bragarnich

Bibliografia:

Christian,G. Le musée imaginaire de Carl Gustav Jung, 1998, Ed. Stock

Compton’s Interative Encyclopedia, 1996

Erasmus, D.Colletanea Adagiorum, 1500/1508

Hill, J.Jung na torre de Bollingen, filme, Arthouse Film, 1950,colorido, 30 min

homepage.mac.com/cparada/GML/Delphi

Jung,C.G. Obras Completas de C.G.Jung, Vol.16, Ed. Vozes

Jung, C.G.Memórias, Sonhos e Reflexões, A Torre, 5º ed., Ed. Nova Fronteira

Knight, K.Catholic Encyclopedia, 1909, Vol.5, Robert Appleton Company, Online Edition, 1999.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Incursão Junguiana pela Alma Institucional

Acací de Alcantara
Rubens Bragarnich

Introdução

Nosso objetivo é apresentar os resultados da utilização de um modelo experimental de intervenção institucional desenvolvido a partir da atitude clínica junguiana em uma entidade associativa de Psicologia de São Paulo.
Como é sabido Jung não atribuía valor significativo ao trabalho psicológico de/com grupo ou instituição, gerando uma atitude de alinhamento automático dos profissionais da Psicologia Analítica nesta direção. Certamente esta posição se devia a sua preocupação com os processos coletivos de achatamento da consciência do tipo identificação com o grupo, participation mystique, abaissement de niveau mental onde a condição grupal pudesse restringir o florescimento e desenvolvimento da consciência individual. (Jung,2000ª) Este ponto de vista tem sido corroborado pela esmagadora maioria dos junguianos e questionado por poucos como Whitmont E., Samuels A. e M-L Von Franz (Mendes,2005).
Desta forma foi uma pequena ousadia iniciarmos um trabalho experimental com a alma de uma instituição, com todo o cuidado e rigor possível que a nossa experiência clínica pudesse oferecer, utilizando as reuniões mensais dos membros desta entidade como campo de observação e intervenção, como continente para a revelação do inconsciente profundo da instituição.

Método

Inicialmente é preciso esclarecer o que entendemos por atitude clínica: é a predisposição ou configuração psicológica cognitiva, afetiva, conceitual e corporal, com determinadas sensibilidades apuradas, e que estrutura basicamente aquele conjunto que se reconhece como a praxis junguiana. Enfatizamos também que o vocábulo clínica refere-se àquela postura derivada a partir de sua fonte etimológica original grega que salienta o (Klisis, eos) inclinar-se sobre (Kliné,s) o leito de alguém para ouvirmos a sua dor e o seu sofrimento ( Houaiss, 2001 e Torrinha,1942).
Através desta atitude nos foi possível a criação de um vaso clínico visando a pesquisa, a compreensão e a conscientização das revelações do inconsciente da entidade através dos fenômenos grupais, atentos as suas várias expressões, ao seu sofrimento, as suas dificuldades, aos significados psicológicos de suas disfunções e às alterações da energética anímica, ou seja, as flutuações em sua vitalidade.
A abordagem foi eminentemente experimental, dada a carência de referências na literatura da Psicologia Analítica; evidentemente assumimos a nossa subjetividade e quadro mentais junguianos uma vez que teria sido impossível nos livrarmos do viés clínico, analítico e simbólico. Tivemos a preocupação com o uso parcimonioso da linguagem o menos possível conceitual e não houve qualquer tentativa de adaptar ferramentas de intervenção institucional ou de recursos técnicos de manejo grupal ao nosso trabalho.
A adoção do modelo clínico como um méthodos grego, isto é, como pesquisa ou busca, foi se mostrando suficiente e eficaz ao longo do caminho do trabalho, o que nos incentivava a continuar (Houaiss,2001).
A nossa conduta seguiu as condições não-diretivas, a escuta e o olhar clínico peculiares ao modo junguiano e as nossas intervenções se direcionaram em busca de evidenciar, pontuar e compreender a atividade do inconsciente institucional.

Queixas

A busca da nossa ajuda se deu através do contato inicial de um membro da diretoria, que formulou a queixa, posteriormente confirmada em reunião com todo o corpo diretivo da instituição.
Foram identificados graves distúrbios interpessoais que dificultavam o funcionamento geral da entidade, pulverizando-a em subgrupos conflitantes. Estes pequenos grupos se consumiam em conflitos, competição acirrada, luta pelo poder sob a égide de lideranças personalistas, colocando a existência da própria instituição em risco.
A atmosfera institucional era tensa e persecutória, eivada de ataques virulentos, desqualificações (ironias, sarcasmos, zombarias etc.), com redução generalizada da empatia cognitiva; havia constante irrupção de rumores maledicentes entre os pares, bem como uma estranha atitude devoradora para com os alunos e candidatos a membros.
A entidade, embora gozasse de ótima reputação pelas instituições da área de psicoterapia de grupo e similares, padecia de certa obscuridade na comunidade psicológica para a qual é prestadora de curso de formação e supervisão bem como com público potencialmente usuário do serviço clínico; internamente sofria de um sentimento de inferioridade e se encontrava num estado tácito de estagnação institucional.
Havia uma fissura na identidade institucional cujas vertentes conflitantes se estruturavam entre a necessidade de uma profissionalização plena vista como árida e impessoal e a perda de toda possibilidade de grupo de amigos e do prazer da convivência interpessoal.

Características da Instituição

Centro de formação e de trabalho em Psicologia de Grupo, formada por psicólogos e psiquiatras em sua maioria especialistas em psicoterapia de grupo e configurações vinculares. A base teórica é de orientação psicanalítica das mais variadas correntes. Nasceu como dissidência de outra instituição se estabelecendo em São Paulo há muitos anos. É prestadora de serviços de psicoterapia de grupo e grupoterapia e oferece um curso de formação para terapeutas de grupo com 5 anos de duração. Atualmente encontra-se em processo de reconhecimento pelo CFP.
É filiada a entidade paulista, nacional e latino-americana de terapia de grupo, realizando e participando periodicamente de workshops, seminários, congressos etc.
É composta por um núcleo central formado na época por duas dezenas de membros efetivos e alguns poucos alunos e candidatos a membro. Edita um periódico semestral que veicula as idéias e ideais da instituição. Somente os membros efetivos estão autorizados a participar do Grupo de Reflexão mensal.
Contrato
A freqüência foi estabelecida em encontros mensais de 1:30 horas de duração com os membros da entidade, na modalidade “Grupo de Reflexão”, para discussão de assuntos institucionais. A nossa intervenção teve início em junho de 2004 atingindo o inicio de 2007. Os honorários foram estipulados com base nos valores de hora clínica.
Foi esclarecida a nossa condição de psicólogos de formação junguiana, como também foi explicitada a nossa inexperiência em trabalhos com grupos.
Combinamos uma garantia mínima inicial de continuidade de 3 meses renováveis seqüencialmente.

A freqüência dos integrantes das reuniões era flutuante uma vez que não havia a obrigatoriedade de presença.

Construção do Método

Observamos a construção paulatina do vaso clínico através da ativação da psique institucional na situação mensal de grupo, equivalente ao que se estrutura em uma sessão clínica em consultório.
Durante os encontros, tentamos eleger intuitivamente critérios, referências, processos e padrões anímicos a serem observados através da dinâmica grupal; assim perscrutávamos constantemente as atmosferas, os mitologemas vivenciados, as regências arquetípicas consteladas, o material encoberto em cada participação, em cada conflito, cada ataque, em cada abraço e assim por diante, abertos que estávamos a compreensão das dinâmicas psicológicas em seus diversos níveis.
Procuramos identificar e elaborar em grupo os símbolos que emergiam nas diversas situações grupais, trazendo-os à conscientização e à reflexão de todos, dando plenas condições para que houvesse oportunidade equânime de participação.
Certamente devido a nossa formação clínica tivemos o especial cuidado constante com grau de sofrimento e de exposição relativa dos participantes dentro das características de personalidade e tipologias de cada um de nós.
Foi significativa a necessidade de todos se reencontrarem com a gênese e a trajetória histórica da entidade, desvelando aí o seu mito fundacional e a sua vocacional; os membros se dedicaram a construção da “árvore genealógica” da entidade e de seus membros fundadores, trazendo à memória os formadores das gerações anteriores. Sentimos que traçar as redes que vinculam a entidade à história da própria Psicologia e da Psicanálise no Brasil foi como descobrir o fio histórico e de amparo que atribui sentido e legitimidade a existência da instituição.
Foram explicitados conflitos na identidade institucional que apontam para a dificuldade de funcionamento psicológico dentro do âmbito do arquétipo do pai; isso se expressa nas lutas internas pelo poder, na oposição entre verticalidade e horizontalidade das relações interpessoais, na discussão da hierarquia e da burocracia e, finalmente, no esforço na busca do equilíbrio entre lei e afetividade.
Foram particularmente trabalhosos a detecção e o manejo dos conflitos de ordem fratricida: choque de lideranças em meio a atuação de invejas, às vezes com requintes de crueldade, desqualificações intensas e competição desmedida, disputas baseadas mais do que tudo na vaidade. Pudemos perceber a formação de alianças e coalizões querelantes entre si, como clãs adversários em processo de autofagia.
Foram examinados os ritos de entrada, de passagem e de saída institucionais, assim como também foram discutidos os direitos e as regras e os mecanismos de acesso ao núcleo central da entidade. Estes reconhecimentos dos contornos da entidade, afloraram e trouxeram a tona os sentimentos de pertinência e/ou de exclusão subjacentes.
Os integrantes mostraram preocupação constante quanto aos problemas de inserção da entidade na comunidade e na sua vinculação com organismos nacionais internacionais. Isso parecia mais intenso em momentos de consciência geral da fragilidade institucional e acabava funcionando como a busca de reasseguramento do significado e da vocação da própria instituição.
O trabalho com as áreas sombrias nos níveis individual, dos clãs e coletivo, foi bastante extenuante e foi dissolvendo gradualmente a tensão reinante, o que se manifestou através da competitividade mais harmônica e assertiva, da flexibilização das personae individuais, na ampliação da postura empática, na maior tolerância com o outro etc.
Para que pudéssemos captar melhor o inconsciente da instituição, passamos a compreender as vozes individuais simultaneamente como veiculação de aspectos ou correntes da alma da entidade.
Demos também um tratamento simbólico às diferentes expressões das projeções, idealizações, resistências e configurações transferenciais emergentes e detectáveis no campo grupal.
Observamos vivências intensas nas irrupções emocionais, ab-reações, queixas, confrontos, ações agressivas e reparadoras de vários matizes, suportadas pelo grupo com grau variado de assimilação elaborativa.
Com relação aos fluxos e movimentos transferenciais perceptíveis entre determinados membros (em geral os mais velhos ou os fundadores) e inevitavelmente com os coordenadores, pudemos observar aquelas situações já conhecidas em setting terapêutico: ambigüidade, amor, gratidão, temor, inveja, ciúme, comiseração, agressão explícita, sutil etc.


Resultados

Pudemos observar que a intervenção institucional trouxe uma série de efeitos benéficos e salutares ao funcionamento do grupo e avanços significativos no processo de diferenciação da entidade.
Criou-se outro espaço para discussões de organização da entidade, algo que havia sido detectado como uma necessidade organizacional.
Os conflitos de tornaram mais abertos, claros e ao mesmo tempo mais assertivos e mais competentes, ganhando maior objetividade e menor subjetividade.
Foram observadas mudanças de atitude nos processos decisórios, a criação de atmosferas solidárias e integrativas, maior qualidade no enfrentamento de conflitos e capacidade reparadora dos participantes.

O próprio grupo avaliou e reconheceu o fortalecimento e maturidade institucional, demonstrado através da confiança em expor e olhar para as suas próprias feridas, suportando o impacto das projeções sombrias e anímicas, permitindo a possibilidade de confrontos lícitos e de reparações.


Conclusões

A partir deste trabalho experimental pudemos extrair algumas conclusões iniciais descritas abaixo.
Conseguimos verificar a hipótese da viabilidade de acessar a psique institucional através de uma intervenção junguiana em grupo com profundidade, reflexão, capacidade de insights e capacidade de elaboração.
Foi possível reconhecer a competência e eficiência da abordagem clínica junguiana à alma institucional através dos processos grupais.
Um dos fatores colaborativos foi a valorização do “olhar estrangeiro” como constelador e garantidor da estabilidade e continuidade dos processos de abertura e elaboração.

Verificamos a importância da coordenação conjunta do processo, que se mostrou útil pela intersubjetividade na compreensão dos fenômenos da psique grupal, bem como na facilitação e condução do trabalho.

Ficou evidente a importância da atitude junguiana como fator apriorístico
fundamental no enfrentamento de uma nova experiência profissional.
As polaridades psicológicas tiveram a sua plena expressão na atividade grupal. A polaridade criatividade - destruição esteve sempre presente e foi decisiva para a criação e consolidação da psique institucional.

O nosso trabalho parece ter criado as condições para enfrentamento das crises de morte institucional proporcionando os recursos para o renascimento e a reconstrução institucional.

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Referências Bibliográficas
- JUNG, C.G. - Sobre o Renascimento. (1939) In: JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras completas de C. G. Jung. Vol. IX/1. Tradução: Maria Luíza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2000a. § 225 a 228.
- HOUAISS A. – Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa – versão 1.0,
2001, Editora Objetiva Ltda.
- MENDES, A. – A Psicologia Analítica e o emprego do termo grupo – disponível em . Acesso em 12.maio.2006
- TORRINHA, F – Dicionário Latino Português – 1942 – Gráficos Reunidos Ltda. Porto (Portugal)
*originalmente apresentado como pôster no XIII Simpósio Internacional de Psicologia Analítica em novembro de 2005 em Canela (RS)

acaci.alcantara@uol.com.br
bragarnich@uol.com.br

TRES E UM QUARTO

para A.A.


_ Que barulho foi esse?

_ Não sei... _ responde Luca desinteressado.

_ Vá ver! _ ordena Cauê.

_ Vá você, ora bolas! Não vê que eu estou colando figurinha?

(O que custa ele ir? Eu estou sempre fazendo coisas que ele manda!) _ Luca está envolvido com os cromos.

Vencido pela curiosidade, Cauê não tem outro remédio a não ser ir ele mesmo, não sem dar, de passagem, um empurrão no menor que sorri satisfeito por não ter cedido desta vez.

_ Nossa mãe! Caramba! _ exclama ao chegar à janela.

O irmão se interessa, mas está entretido; fica dividido entre as figurinhas e a novidade. Decide-se e corre para onde está Cauê.

_ Está vendo, Luca?

_ Puxa vida! Que confusão! _ comenta o menor.

_ Zezé! Venha ver! _ chama Cauê

Zezé brinca de casinha e escova os cabelos da sua boneca.

_ Que foi, Cauê? _ responde sem parar de brincar.

_ Vem logo! Você está perdendo!

_ Tá bom, estou indo, estou indo... _ Zezé vai preguiçosamente com a boneca debaixo do braço.

Em poucos instantes os três irmãos estão dependurados na janela de frente do sobrado.

Lá fora a tarde está manchada de cinza, com cara de chuva. No meio da rua, há um amontoado de gente grande comprimida, conversando, gesticulando.

Aconteceu alguma coisa.

(Não consigo ver nada! Quem será?) _ Cauê busca uma melhor posição para observar.

O trânsito está parado. Buzinas soam em desarmonia.

_ Caramba! Quanta gente! Que foi?

_ Sei lá, Luca. Não dá pra saber. Pode ser que alguém foi atropelado, caiu..., se machucou...

_ Machucou? _ pergunta Zezé sem esperar resposta. Dirige-se à sua filhinha que dorme em seus braços, olha para o seu rostinho e diz: _ Às vezes a gente pode tropeçar, bater a cabeça... Não é, Suzy? Mamãe cuida de você, viu? Não vai deixar você cair na rua, não! _ faz carinho na cabeça da boneca amorosamente.

_ Não é nada disso, Zezé. Aconteceu alguma coisa... _ Cauê presta atenção; os seus olhos buscam abrir espaço entre as pessoas para ver quem está no chão.

O burburinho continua.

Uma sirene vem aumentando o volume cada vez mais. O som fica estridente.

_ Está chegando a polícia! _ Luca está impressionado; balança os braços no peitoril da janela; está agitado.

(Agora sim, agora sim!) _Cauê suspira animado.

A aglomeração humana tem a forma de um bicho volumoso, desengonçado, que se mexe lento e ondulante. Ele oferece resistência aos guardas, não querendo sair dali, devorando a situação. Os policiais vão abrindo caminho, rompendo o cerco: _ Para trás, para trás...

As crianças observam a movimentação. Cauê, Luca e Zezé não tiram os olhos da rua.

Expectativa.

O burburinho cessa aos poucos e o silêncio, até então escondido, cresce.

Os dois guardas estão abaixados, examinando. Falam uma coisa entre eles.

A expectativa cresce.

Quando se levantam, as crianças já podem ver.

Cauê instintivamente vira o rosto como se tivesse levado um tapa.

Luca fica imóvel: o olhar fixo, a boca aberta. Em sua mão, a figurinha está esmagada.

Zezé abraça a boneca com força. Sai dali lentamente em direção ao fundo do quarto; põe Suzy na cama com a cabeça enfiada no travesseiro e faz com que chore baixinho.

Enquanto isso, Luca permanece estupefato. _ Não acredito nisso, Cauê. Hoje mesmo eu vi, eu vi... De manhã, estava ali na frente do estacionamento. Agora acontece isso... Minha nossa! _ sua cabeça vai pendendo, pesada.

(Que droga!) _ Cauê chuta a almofada jogada no chão voltando para dentro do quarto bagunçado.

Aos poucos, todos voltam aos seus lugares: Cauê joga play station, Luca tenta desamassar a figurinha com a mão e Zezé...

Bem, Zezé está alheia a tudo isso... Penteia os cabelos loiros da filhinha.

As crianças estão tristes e silenciosas.

Zezé desenha uma lagrima perdida no rosto da sua boneca. Depois limpa com o dorso da mão.

O relógio marca três e um quarto.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Alguém tem algo a declarar?

Dr Agenor ajeita-se na cabeceira da mesa. Terno cinza com gravata em tom parecido. Um pouco amassado. Maleta no chão junto ao pé da mesa. Documentos timbrados em suas mãos.
Pigarreia. Senhores, senhores... Por favor. Um minuto... Ruídos vocais. Um minutinho... Silêncio Ótimo. Bem, como todos sabem estamos aqui reunidos para lermos o testamento do Dr. Felipe Barreto que recentemente nos deixou. Colando seus óculos de leitura nos olhos, o velho advogado da família percorre seus olhos num documento e com sua mão esquerda coça a perna esbranquiçada. Ah sim, aqui está. O testamento cerrado foi firmado em doze de dezembro de 2006. Depois vocês podem checar as assinaturas das testemunhas e do Dr. Felipe. Está lacrado; ficou no meu cofre desde 2007.

Beth, viúva bem rejuvenescida, com lenço nas mãos, vestido comprido negro, filhas desoladas, garoto pequeno no chão brincando fora da densa atmosfera de velório. Tio Paulo, amigo e padrinho de Pietro, prima Verônica e Jussara ouvindo da porta. Limpa suas mãos no pano de prato e presta atenção no advogado que rasga a ponta de um envelope amarelado que contem o tal testamento. Coisa de rico!

Bem, aqui está, vamos ver.
Peço silencio pois vou ler o testamento.

Eu, Felipe Barreto, RG numero tal,CPF número tal – não precisa ler tantos detalhes, não é? - gozando de plena capacidade física e mental com minha livre e espontânea vontade e dentro dos limites que este instrumento me outorga, faço conhecer o meu desejo de destinação de meus bens que a lei me assegura.

À minha querida companheira Elizabeth Felix Barreto, deixo a nossa casa, meu carro Mercedes negro, blindado, R$ 350.000,00 e mais rendimentos anuais das ações em carteira na Corretora Bueno & Filhos. Após 5 anos de minha morte, essas ações já estarão liberadas para venda em pregão e cujo valor líquido extraído seja dividido 50% para a viúva e outros 50% em partes iguais para meus 3 filhos. Nomeio desde já tutor para este fim e outros cabíveis para o meu filho mais novo, o meu digníssimo advogado e procurador Dr. Agenor, que neste momento lê este documento.

O imóvel rural denominado Fazenda Bosque dos Barreto, situado no município de Extrema (SP) em partes iguais para minha filha mais velha, Beatriz Felix Barreto e Maria Clara Felix Barreto. Também deixo R$ 250.000,00 em aplicações financeiras no Banco do Brasil, agencia tal e tal para cada uma delas para pagar seus cursos universitários.
Continuando... Ao meu caçula Pietro Felix Barreto, menor, deixo nossa casa de praia e R$ 320.000,00 para custeio de sua vida incluindo seus estudos universitários. Ao tutor por mim nomeado caberá monitor estes gastos. O dr. Agenor receberá mensalmente a quantia de 20 salários mínimos para pagamento de honorários extraído da massa financeira da viúva meeira e filhos.

Finalmente, deixo para o meu melhor amigo Josias Siqueira dos Anjos a srta. Marlene Tobias dos Santos, CPF e RG número tal e tal, minha amante durante 20 anos, que saberá desfruta-la tal como fiz ao longo deste tempo. À srta. Marlene destino jóias e valores sob custódia na mesma agência do Banco do Brasil, cuja senha encontra-se sob sigilo com o meu advogado. Lembro ao amigo Josias que a srta. Marlene não permite relações anais nem suporta atos sádicos e masoquistas.
Favor comunicar o sr. Josias e a srta. Marlene o teor deste desejo uma vez que, presumo, não estejam presentes neste momento.
Estas constituem a livre expressão da minha vontade e do meu desejo mais profundo. O documento foi lavrado em 12º cartório da capital no dia 12 de dezembro de 2006, tendo como testemunhas o sr. Ricardo Monteiro de Carvalho, dona Lívia Nunes Parente e o sr. Carlos Roberto Vargas y Lopez.
Silêncio longuíssimo.
Bem, parece que é isso. Dr. Agenor levanta os olhos para os presentes...
Alguém tem algo a declarar?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A VISITA

Existe Borges em demasia. Você
talvez esteja falando com um
terceiro ou quarto Borges.
J.L.B.




A claridade vem da janela alta, situada um pouco acima da cruz católica. Ela vem como um facho de luz direto nos olhos... Um clarão. Reação instintiva de cobrir o rosto... Aperto os olhos fugindo da luz.
- Droga...
Devagar a vista acostuma.
- Hum...
As imagens vão ficando claras; nítidas: uma silhueta masculina: cabelos curtos, braços cruzados, blusa areia e um par de olhos fixos em mim...
- Há quanto tempo você está ai?
- Cheguei há pouco...
Arrasta-se para sentar com o costado na cabeceira da cama.
- Eu estava cochilando...
- Sei...
- E você?
- Queria te ver. Já era tempo, não é?
- Como assim? Por quê?
- Você sabe...
- Lúcio, seja claro: você sempre fala assim, a gente nunca entende...
- Entende sim senhor; você sabe, sabe muito bem do que estou falando. Sempre fugindo...
Meu rosto arde como se tivesse levado um tabefe...
- Não deu. Apenas isso. Tive... Tive receio. Fiquei um pouco confuso na época...
- Receio? Confuso com o quê?
- Não sei; receio... Sei lá. Não queria ir, oras bolas!
- Você tinha certeza?
- Sim; tinha. Quer dizer... Achava que sim...
- Então não tinha.
- O que você quer comigo, heim? Me torturar? Já não chega o que estou passando? Neste frio, com essas pessoas estranhas, gente que eu não conheço...
Silêncio
Olhando para o infinito, o acamado vai para dentro de si mesmo:
- Eu pensei que não dava... Simplesmente não dava para ir e pronto. Achava que tinha tomado a melhor decisão. A decisão certa. E... Bem... Depois, depois você já sabe...
-Você simplesmente se negou a ir, cara... Tinha que ter enfrentado; tinha que tentar... Precisava ter tido coragem. - o visitante fala com ódio e amargura.
Os olhos do jovem se enchem de lágrimas.
- Chega! Chega! Eu não agüento. Pare, pare com esse interrogatório!
Mãos no rosto, escondendo o choro com vergonha. Com o corpo virado para a cabeceira, rosto enfiado no travesseiro, a voz soa abafada:
- Não pude ir... Não consegui viajar para a Alemanha... Eu tive medo de não me adaptar, de ter que voltar... Medo. Medo de não conseguir, entendeu? Não consegui ir... - o choro fica intenso e convulso, como chuva com trovão.
- E? Continue.
Ainda de costas, reclinado, confessando...
- Eu deixei passar; pedi para não ir. Achei que era melhor. Mas depois tudo mudou, não sei o que aconteceu: foi ficando ruim; nada mais dava certo; fui ficando com medo... me fez mal, muito mal não ter ido... Passei a ter medo de tudo; até de sair na rua! O mundo ficou estranho, esquisito; não consegui mais ir pra Volks.
Encara o homem de braços cruzados e desvia o olhar para o chão:
- Preciso te contar uma coisa, Lúcio: comecei ver a toda hora aqueles lutadores, uns guerreiros... Todos fortes, com facas, lanças nas mãos. Estavam em todos os lugares. Desafiavam-me... Ô covarde. Cuzão. Nós vamos te pegar... Não adianta fugir. Lúcio; eles riam de mim. Gargalhavam. Eu fugia, mas eles me achavam... Me perseguiam; não tinha lugar para eu me esconder. Tinha que fugir. Era um inferno! Um maldito inferno!
Depois de longo tempo em silêncio, a respiração normaliza...
- A mãe me trouxe aqui. Não sei faz quanto tempo, Lúcio...
- Meses, cara: uns 3 meses.
- Três meses? Já?
- Já. E os guerreiros, ainda te perseguem?
- Não; não mais. Foram embora... Acho que estou melhor. Eu quero ir embora, ir para casa.
- Claro; claro... Vai sim...
Pausa.
- Me perdoa Lúcio!
- Já o perdoei há muito tempo. Na verdade, perdoei há anos... Tudo deu certo: casei com a Cleuza e tenho dois filhos, grandes; estão no colégio. Consegui, a duras penas, emprego no Kalassa. Cuidei-me. Fui promovido! Virei chefe de departamento... - conta cada vez mais exultante até que silencia; percebe onde está e o que veio fazer. Volta-se para o rapaz, muda o tom, quase terno, e aproxima-se da cama:
- Veja; eu precisava te encontrar; dizer-te isso; fazer com que você me visse, percebesse que eu estou bem. Entende? Olhe para mim, olhe para si mesmo!
Os dois homens se fitam por um tempo.
- Um dia nós dois voltaremos a nos encontrar - continua - não numa visita como agora... Em algum tempo, em algum lugar...
O visitante é atraído e fica absorto pela luz da janela por instantes.
- Agora preciso ir. A gente se vê.
Sem olhar para trás, vai embora.
O jovem suspira, escorrega na cama e mergulha novamente na sonolência. Languidamente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O ENIGMA DE ANTONIO

- Alô. Quem é? Quem? Ant... Antonio? Que Antonio?
Do outro lado da linha uma voz firme, inteiramente desconhecida, diz que me conhecia e como me achou.
- ...ai eu lembrei do seu sobrenome, coloquei na ferramenta de busca e então pam!
Maravilhas da informática. Internet.
- Achei você, cara! Que bom falar contigo! Paulinho, Oh Paulinho! Parecia sinceramente muito alegre.
- Lembra de mim? É o Antonio, porra!
Atônito, ainda em dúvida:
- Claro, Claro. Lembro sim... Quer dizer... Você era o Toninho?
Havia lembrado. Incrível; era ele mesmo.
- Toninho, quer dizer, Antonio, há quanto tempo, heim? 1965, 66... Estudamos juntos no Artur de Azevedo!
Sinto um misto de perplexidade e alguma alegria; tudo familiar e ao mesmo tempo desconhecido. O passado distante de repente entrava no presente. Apreensivo, levo os dedos à boca e nervoso mordisco a unha mas não consigo roê-la como fazia antigamente; hábito antigo do qual ficou somente o rastro.
- Lógico que sim, Antonio. Claro que sim... vamos... vamos combinar sim. Vai ser muito bom. Ainda pergunto de outros amigos da época cujos nomes ainda me lembrava. – ... E o Drauzio, o Caveira, Silvinha, Pedrão...
A conversa foi decaindo naturalmente e o impacto inicial, passando...
- Então Paulinho, a gente se reune de vez em quando para matar a saudade... Vamos te chamar, ok?
Concordo mas no fundo sei que dificilmente irei.
- Fique com os meus telefones, Antonio. E-mail também. Ah, sim; anote aí.
Enquanto ele procura uma caneta para fazer as anotações volto a ser invadido pelo sentimento de perplexidade. Oh Toninho!
- Eu te passo meus dados por e-mail, ok Paulinho?
- Ok Antonio, foi um prazer! Vou, vamos sim. Está bem. Tchau. A gente se vê...
Como pode? Durante mais de vinte anos venho acreditando numa verdade que simplesmente não existe: alguém havia me dito que o Antonio tinha morrido de câncer ainda adolescente, logo após eu ter saído do bairro.
Algum tempo depois, contrariando as minhas previsões, acabei indo a tal reunião com o pessoal do colégio e ali reencontrei alguns do meus colegas e naturalmente o Antonio. Relembramos muitas coisas escondidas atrás de uma penumbra de mais 30 anos, regadas com cerveja e salgadinhos gordurosos e pude constatar o efeito inexorável do tempo: todos envelhecidos, calvos, flácidos, barrigudos, irreconheciveis, salvo raras exceções. Antonio e eu acabamos saindo juntos da festa e fomos caminhando lado a lado até os nossos carros estacionados na rua, tempo suficiente para que Antonio abrisse o seu coração e me contasse uma história intrigante.
- ...Rapaz! Era demais. Imagine: Rio de Janeiro, aquelas praias, aquela beleza de cidade. Mulheres lindas. Foi aí que conheci Branca numa festa na casa de uns amigos que moram lá no Leblon. Foi tesão à primeira vista!
Ouvia-o avidamente. Ele estava empolgadíssimo com sua aventura. Estava bastante alterado pela bebida, rosto avermelhado e resolvemos parar na padaria para um café e ali mesmo continuou sua narrativa.
_ ...Olha!, a Branca era um encanto. Acabamos nos envolvendo. Foi uma loucura! O tempo que passei lá aproveitamos muito: praia, cerveja, música... muita música e muito sexo: dormimos juntos todas as noites. Uma delícia!
Foram duas semanas e meia de amor! Ria satisfeito fazendo referência ao ‘9 e ½ semanas de amor’. Depois de um pausa, cabisbaixo, conformado:
- Mas como tudo na vida, o que começa um dia acaba, meu companheiro: tinha chegado a hora de voltar pra casa. Você quer um cinzeiro, Paulinho? ao ver-me acender um cigarro. Espere aí um pouco... Pronto, tá na mão... Bom, onde parei. Ah! Na volta para casa. Foi bem legal, sabe? teve aquela coisa de despedida, aquela delicadeza no aeroporto, beijinhos, abraços apertados, tchauzinhos e sorrisos sinceros.
O tempo passou e tudo ficou para trás; casei duas vezes, tive filhos, mas nunca, juro por Deus!, nunca me esqueci da Branca. Sabe, era algo especial... Ele estava tentando entender sem entender nada.
- Era algo diferente, Paulinho. Não sei explicar. Quimica, paixão... Sei lá, só sei que Branca era um tormento. Que mulher! Sonhava.. inconformado. Após silêncio de instantes, suspira e meneia a cabeça retomando o fio da conversa..
- Várias e várias vezes eu cheguei a me masturbar imaginando estar com ela... Agora, escuta bem: presta atenção! Agora... Açúcar ou adoçante? Interrompe-se.
- Adoçante, Antonio. Isso, três gotas. Está bom, obrigado. Bom, e daí? Conta o resto!
- Bom, deixa eu ver? Ah!, lembrei! Eu vivia mal com minha mulher, sabe como é... bem, a verdade é que a imagem da Branca nunca saiu da minha cabeça. Aí me deu a louca e eu resolvi ir atrás dela. Eu andava muito descontrolado, precisava sair, esfriar a cabeça. Chego lá. Estou eu no Rio atrás dela. Eu sabia que Branca tinha uma loja fina de roupas femininas ali na rua Nossa Senhora de Copacabana. Chego ansioso e quase sem fôlego e vou perguntando para a primeira atendente que vejo:
- Por favor, por favor, eu gostaria de falar com a Branca.
- O senhor quer falar com a dona Bruna?
- Não, não. Branca. Ante ao olhar surpreso da atendente, continuei: A Branca... A dona da loja... Bran-ca, soletrei.
- O senhor quer falar com a dona Bruna?
- Não, não. Branca. Ante ao olhar surpreso da atendente, continuei: A Branca... A dona da loja... Bran-ca, soletrei.
- O senhor... o senhor. Acho que o senhor não sabe... A loja agora é da dona Bruna, meu senhor. A dona Branca era irmã dela; faleceu de câncer há muitos anos atrás.
Olho para Antonio: ele está calado e triste; o seu olhar está perdido no infinito. Esse átimo parece uma eternidade. Acabamos o café e nos despedimos com um abraço apertado e longo. Vou pensando no enigma que envolve Antonio com a morte. Ele jamais soube que eu o tinha como morto durante anos.